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Maratona de filmes: Haggis, Rohmer, Loach

Luiz Zanin Oricchio

01 de setembro de 2007 | 08h02

VENEZA – Na maratona em que se transformou esse fim de semana em Veneza, só posso dar a vocês uma idéia dos filmes que tenho visto. In the Valley of Elah, de Paul Haggis, deveria ser posto em continuação com Redacted, de Brian de Palma. Com linguagens e propósitos diferentes, tratam do mesmo assunto, os efeitos deletérios da invasão do Iraque sobre os próprios Estados Unidos. Tommy Lee Jones faz o pai de um soldado, recém-chegado do Iraque e que desaparece de repente. Ele procura pelo filho, à maneira de uma trama policial. E acaba descobrindo coisas que talvez não quisesse e o fazem mudar a concepção que tem do seu próprio país e do patriotismo. Um belo e intenso filme, do mesmo diretor de Crash, que ganhou o Oscar no ano em que todos esperavam pela vitória de O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee.

Com Les Amours d’Astrée et de Céladon, o veterano Eric Rohmer busca a linha da fábula pastoril, na qual os dois amantes se desentendem, se separam e acabam se reencontrando depois de muitas situações equívocas. Ambientada no século 5 d.C., segundo uma narrativa do século 17. È incrível como Rohmer, em idade avançada, consegue manter o frescor de sua narrativa, e valoriza as ambiguidades das situações amorosas.

Acabei de ver o novo Ken Loach, It’s a Free World, um título de evidente ironia, pois adota como tema a exploração de trabalhadores ilegais que chegam à Inglaterra em busca de uma oportunidade. Terminou a sessão e alguém me disse: “Ele sempre faz o mesmo filme”. Conversa. A preocupação social è a mesma. Os filmes são diferentes. O estilo è simples, extraindo interpretações intensas. E, quando os europeus, com sua auto-suficiência, culpam os imigrantes ilegais por tudo de ruim que acontece, Loach, um humanista de esquerda, repõe as coisas em seus lugares e mostra a parte que cabe aos países desenvolvidos por esse estado de coisas. No caso, a personagem principal é uma moça inglesa, explorada ela própria, que passa a explorar os outros, mais fracos do que ela, pois afinal “tem filho para criar e precisa sobreviver”. É assim: os peixes maiores comem os menores e os um pouquinho mais fortes devoram os outros para não serem devorados pelos de cima. Admirável mundo…

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