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Maradona, por Kusturica

Luiz Zanin Oricchio

23 de junho de 2010 | 09h31

Nasceram um para o outro. Ou alguém poderia fazer um filme sobre Diego Armando Maradona como o cineasta Emir Kusturica? Ambos são barrocos, radicais, revoltados como dois garotos da periferia. São eternos meninos, embora tenham idade para serem avós, e são maravilhosos em suas incongruências juvenis na (muito razoável) revolta contra as injustiças dos poderosos. Num mundo tão cheio de eufemismos, meias palavras e atitudes miúdas, eles são o sal da terra.

Mas havia o que se temer deste Maradona, de Kusturica, lançado agora pela Europa Filmes. Poderia se transformar em embate estéril de personalidades, muito pouco esclarecedor porque, geniais ambos, são donos de egos monumentais, que dificilmente caberiam na mesma tela. Kusturica usaria Maradona para falar de si mesmo? Em certo sentido, sim. Há um processo claro de identificação do cineasta com o jogador. Não apenas pelo que pensam de semelhante a respeito de Thatcher, Reagan e Bush, mas pela proveniência e preferência pelos desvalidos do mundo. Por aqueles que, do fundo da sua pobreza, são os que sabem viver, os que praticam os verdadeiros valores, segundo o ideário de Maradona e de Emir.

De tal forma que, em muitas passagens desse documentário sobre Diego Armando Maradona, veem-se citações de filmes do próprio Kusturica. Do povo que ele retrata e celebra. Dos pobres da região dos Bálcãs, dos ciganos, com sua agitação, sua musicalidade, prodigiosa capacidade de beber e gozar a vida. São seres irmãos daqueles que encontramos no bairro pobre de Fiorito, onde cresceu Diego em uma família de oito irmãos.

Esses paralelismos, no entanto, não reduzem o filme a uma trip egoica. Apenas deixam claro de que ponto de vista se fala. Kusturica não é um documentarista isento que iria fazer um filme “objetivo” e desapaixonado sobre um ídolo popular. Ele é um fã. E, mais que um fã, um irmão do retratado. São dois malucos geniais que se contemplam mutuamente.

E, nessa postura nada objetiva, temos um recorte apaixonado para trajetória de Maradona. Da pobreza da infância aos dias de glória no Boca Júniors, no Nápoli e na seleção argentina. Essa trajetória é vista como aquilo que de fato foi – um ato de afirmação futebolística e artística (os gols de Maradona fazem parte do melhor repertório do futebol de arte já visto) e também de rebeldia e de revanche, expressos pelo futebol.

Não por acaso, os dois gols contra a seleção inglesa na Copa de 1986 são relembrados à exaustão. Um, o gol da “mano de Diós”, tão recordado esses dias por conta do gol de mão de Luis Fabiano; e outro, aquele que é considerado como o mais bonito das Copas, quando “el diez”, saindo da sua defesa, dribla meio time adversário até marcar, na saída do goleiro. Era a revanche – simbólica – do massacre dos jovens argentinos na guerra das ilhas Malvinas. Um gol, ilegal mas de pura malícia, e outro, dentro da lei e estupendo. Apenas um gênio poderia construir essa dupla obra e numa mesma partida.

Maradona, o filme, é o registro desse gênio – com seu lado frágil, humano e contraditório como pano de fundo.

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