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Mão na bola nos campos da vida

Luiz Zanin Oricchio

15 de abril de 2008 | 13h37

Bom, a esta altura do campeonato já estamos todos de acordo que o primeiro gol do São Paulo foi irregular e, ao contrário do que afirmou Paulo César de Oliveira, não se tratou de um “toque involuntário” do atacante. Adriano, malandramente, viu que não alcançaria a bola com a cabeça e meteu o braço na jogada. Enganou direitinho o juiz e a bandeira. E, sorrindo, confessou o que havia feito.

A admissão da “culpa” incrimina Adriano? Fosse o futebol outro tipo de atividade e essa confissão bastaria para invalidar o gol, talvez o jogo, e suspender o jogador. Afinal, foi uma jogada fora da lei. No futebol, vale o que acontece na hora. Depois, não adianta chorar, o que às vezes é inevitável. Disse Adriano que tudo isso faz parte do futebol. E lembrou o gol de Maradona na Copa de 1986, contra a Inglaterra, com a “mano de Diós”.

Lembro que, naquele mesmo jogo, Maradona fez outro gol, este legal e de antologia, em que saiu da sua defesa e foi driblando inglês em cima de inglês, até acabar na cara do goleiro, quase entrando com bola e tudo. Lembro também que, pouco antes dessa Copa e desse jogo, houvera a guerra das Malvinas, na qual a Inglaterra reconquistara a faixa de terra que os militares argentinos haviam retomado num espasmo de patriotismo para consumo interno.

A forte Inglaterra havia recuperado a sua ilhota gelada como quem tira um doce de criança, mas muitos jovens argentinos pereceram naquele conflito inútil. Na Copa, as feridas ainda estavam abertas. O jogo era uma espécie de acerto de contas simbólico entre os dois países. Para a Argentina, uma revanche daquele outro jogo, bem real e muito mortífero.

Pois bem, os argentinos exultaram com aqueles 2 a 0, e com todas as razões do mundo, futebolísticas e outras. Tempos depois, fizeram uma enquete: qual dos dois gols era o favorito da torcida? O irregular ou o gol de placa, antológico, um símbolo eterno do futebol-arte? Deu o gol de mão. Talvez, no imaginário dos torcedores, fosse mais gostoso ganhar dos ingleses na malandragem, na catimba, do que pela arte límpida de um futebol de sonho.

Tenho certeza de que esse pensamento não é exclusivo dos irmãos argentinos e que há muitos são-paulinos vibrando com a malícia do Imperador. Antes que me sacrifiquem no altar da moral e dos bons costumes, vou logo avisar: não estou elogiando esse tipo de comportamento; apenas constato que existe nos campos de futebol, provavelmente desde que a bola começou a rolar. E atire a primeira pedra o palmeirense que puder dizer para si mesmo que não estaria feliz como um periquito caso a situação fosse inversa. Assim é o futebol, assim é a vida, assim são as pessoas, em sua falibilidade. “A man is a man”, dizia Shakespeare que, com seu gênio, sabia o que era lícito esperar, e o que não era, de seus semelhantes.

E é por isso mesmo, por não podermos confiar cegamente no fair play dos nossos adversários, e muitas vezes nem no dos nossos aliados, que inventaram uma instância fora de nós e que não representa nem a mim e nem ao outro, mas a uma entidade abstrata chamada Justiça. Nas quatro linhas, essa figura é a do juiz e seus auxiliares. Nesse campo mais amplo, nesse terreno de várzea que é a vida de todos nós, é o sistema judiciário que exige o cumprimento do contrato que duas pessoas celebram e impede que um, como o outro, coloquem a mão na bola, por assim dizer. Mas tudo o que é humano é falível.

(Coluna Boleiros, 15/4/08)

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