Mano Brown no Roda Viva
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Mano Brown no Roda Viva

Luiz Zanin Oricchio

25 de setembro de 2007 | 15h44

Foto: Jair Bertolucci
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Haveria muito o que dizer da participação de Mano Brown no Roda Vida de segunda-feira. Valeria até uma análise, digamos, imagética, do contraste entre aquele entrevistado – um negro forte, vestido de preto, boné preto -e os entrevistadores, em sua maioria brancos (com exceção de Paulo Lins), alguns de terno e gravata, com seus conceitos bem estabilizados do que seja cidadania, política, moralidade pública, etc.

Brown, no fundo, seria a desconstrução de tudo isso e o foi, em alguns pontos precisos. Ao chamar os traficantes de comerciantes como outros. Ao dizer que criminosos podem ter o seu código de honra e ética entre eles, como as outras pessoas. Ao dizer, com todas as letras, que a polícia é vista como intrusa ao entrar na comunidade, seja ela uma favela ou um bairro pobre. Ao dizer que não conheceu o pai, e contra todas as expectativas compensatórias dos debatedores, que era, ele também, um pai ausente. Ao dizer sem rodeios que apoiava Lula (“ele veio de baixo”) e não esperava nenhuma recompensa por esse apoio.

Não estou dizendo que estou de acordo com tudo isso, nem que dou razão a ele. Essa é outra história e cada um que forme e mantenha a sua opinião pessoal a respeito.

Apenas constato que Mano Brown apareceu, no programa, tal como é – um desconstrutor de consensos, em especial dos consensos de classe média. Um exemplo de como determinadas camadas da população pensam por conta própria, sem o amparo do saber universitário e constituído, da mídia e dos bons costumes, aceitos e pregados por todos. Aliás, conceitos que nós julgamos partilhados pela coletividade, num universalismo aceito sem maiores críticas, como dogma de fé.

Eles pensam e agem amparados na sabedoria que conhecem e com a qual podem contar na hora do aperto: a sabedoria da dificuldade e do sofrimento. A experiência da vida difícil, na qual sobreviver é já um privilégio. Por isso, ninguém deveria ficar espantado que Mano Brown tenha sido reticente e desconfiado em ambiente ao qual não está acostumado e diante de gente que não conhece. Ele estava diante do Outro social, para quem acredita nisso. E os entrevistadores, idem.

Mesmo seu silêncio, suas reticências e evasivas espelham uma concepção de vida para nós estranha e em relação à qual deveríamos ter mais respeito. Talvez, aprender alguma coisa com ela. Isso, caso pudéssemos abdicar de nossas caras certezas e ouvir o outro, mesmo que por um momento.

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