Manifestações: fim do primeiro ato
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Manifestações: fim do primeiro ato

Luiz Zanin Oricchio

17 de julho de 2013 | 10h24

Tendo lido muito sobre e observado as manifestações, ainda continuo confuso. Alinhavo algumas notas para ajudar a pensar.

1)A um impulso inicial generoso e espontâneo, seguiu-se a apropriação do clima de contestação por vários setores organizados da sociedade, contraditórios entre si.

2)Forças políticas enxergaram a possibilidade inédita de desestabilizar Dilma e o projeto de reeleição, dado como certo pouquíssimo tempo antes. O processo de desestabilização, que não havia sido alcançado de maneira plena com a ênfase no mensalão, teve êxito com as manifestações. Certo: políticos, de modo geral, tiveram prejuízo. Mas a conta mais alta foi apresentada a Dilma. Quer dizer, no cálculo político de perdas e lucros, junho foi bom negócio para a oposição ao governo federal. Ótimo negócio, eu diria. Pelas pesquisas, Marina foi a principal beneficiada.

3) Reivindicações corporativas várias se aproveitaram do vácuo de poder e entraram na avenida: médicos, caminhoneiros, policiais, centrais sindicais etc. Houve óbvios locautes, como o dos caminhões. De quebra (e não fazendo jogo de palavras), anarquistas, punks, desordeiros, grupos de culto à violência, marginais, tiveram palco ideal montado nas ruas.

4)As interpretações são dúbias. Apenas a título de exemplo: bom artigo de Clóvis Rossi, na Folha, aponta para duas interpretações opostas, e talvez não excludentes. Para o esloveno comunista Slajov Zizek, o fundo das manifestações é anticapitalista, expressa um profundo mal-estar do sistema. Para o neoliberal Francis Fukuyama (o homem do “fim da História”), o fundo das manifestações é liberal – elas reivindicam melhoria de serviços, a reforma da política, fim da corrupção, a transparência do Estado. Reivindicam o aperfeiçoamento do sistema, sem contestá-lo na base. Dada a confusão do momento, podem ser interpretações complementares. Dos textos que li, recomendo o de Marilena Chaui. Leia aqui

5) Esse período de refluxo (esperemos para ver o que acontece na visita do papa Francisco) parece propício a reflexões. Como um tsunami, as manifestações vieram, devastaram de maneira cega o que havia pela frente e se recolheram. Talvez voltem. É provável que voltem.

6) O gigante acordou. Fez xixi na cama e voltou a dormir. Pode despertar de novo. Com fome.

7) Agora nada será mais “espontâneo” (se é que foi algum dia). As forças políticas contraditórias, grupos de interesse e corporações profissionais aprenderam a potência das ruas e estão dispostos a usá-la. Tempos interessantes.

 

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