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Mandela e Clint

Luiz Zanin Oricchio

28 de janeiro de 2010 | 08h28

Lição de síntese de Clint Eastwood. Nas primeiras cenas, vê-se um campo onde jogadores brancos treinam rúgbi. A câmera se desloca e, do outro lado, meninos negros jogam futebol. Os dois campos são divididos por uma estrada. Por ela, passa uma comitiva, enquanto se anuncia: Nelson Mandela foi libertado. No campo de rúgbi um atleta comenta com outro: “Guarde bem esta data. Foi o dia em que nosso país acabou.” Toda a África do Sul do apartheid está aí. São as cenas iniciais de Invictus, um dos melhores filmes já realizados tendo um esporte como ponto de partida e toda a realidade de um país como ponto de chegada.

Essa sequência mostra um pouco do modus operandi de Eastwood. A simplicidade conseguida à custa de muito esforço e experiência. Um modo de ser taciturno que o leva a resumir frases e situações dramáticas ao essencial. Concessão mínima ao sentimentalismo – e isso num ambiente cinematográfico que valoriza ao máximo a chantagem emocional, o acúmulo de música, efeitos, climas e clichês. Enfim, Clint, dentro dos limites (seus e dos outros) lima todos os penduricalhos e atém-se ao essencial.

Outra sequência digna de nota em Invictus é aquela em que Mandela (Morgan Freeman, magnífico) interrompe uma reunião que discute a troca de nome e das cores do time nacional de rúgbi. Como a equipe, dominada pelos afrikaners, havia sido identificada com o opressor, deseja-se varrer a sua simbologia do mapa. Mandela se obriga a arquivar o revanchismo em nome de uma problemática união nacional. Para fazê-lo, sabe que é preciso assimilar rivalidades. Engolir sapos e convencer correligionários a adotar a mesma dieta. E então temos mais um traço do cinema de Clint Eastwood – sua disposição de tratar temas adultos com atitude madura. Num cinema infantiloide, como o contemporâneo, isso já é muita coisa.

A carreira recente de Clint tem mostrado regularidade e qualidade invejáveis. Desde sua obra-prima de 1992, Os Imperdoáveis, vem sendo assim. Em 1993, Um Mundo Perfeito, reflexão sobre o envelhecimento. Em seguida, a parceria com Meryl Streep no romântico, mas não boboca, Pontes de Madison (1995). Dois anos depois, esse filme estranho chamado Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal. Uma escorregada (ninguém é de ferro) em 2000 com Caubóis no Espaço. Depois uma série de filmes duros, incisivos mesmo como Dívida de Sangue (2002), Sobre Meninos e Lobos (2003) e Menina de Ouro (2004). Em 2006 um díptico contundente sobre a 2ª Guerra Mundial mostrando o ponto de vista dos americanos em A Conquista da Honra e invertendo a perspectiva para captar a experiência dos japoneses em Cartas de Iwo Jima. Em A Troca (2008), um instigante trabalho sobre a questão da identidade, com tamanho senso de direção que coloca até mesmo Angelina Jolie em estado de prontidão artística. Por fim, Gran Torino (2008), um dos melhores filmes lançados no ano passado, crítica da intolerância e da violência. Como se o Clint da maturidade desconstruísse seus próprios personagens de início de carreira.

Isso tudo para colocar Os Imperdoáveis como divisor de águas, o que de fato foi. Mas à custa de ignorar obras tão marcantes como Bird (1988), sua homenagem ao jazz e a Charlie Parker. Ou Coração de Caçador, uma aventura na África que se desdobra em reflexão sobre o ofício de diretor e o encontro da cultura com a natureza. Filme que encontra ressonância tanto no Conrad de O Coração das Trevas como no universo temático de Hemingway.

Não é pouca coisa para um ator bastante conhecido desde os anos 1960 pela face dura, cigarro pendurado na boc – layout que exibia nos geniais western spaghettis de Sergio Leone. Seu talento era já bem perceptível para quem tivesse olhos para ver. Clint imprimia personalidade marcante, a sua assinatura, mesmo em filmes que não dirigia – ou alguém aí imagina Dirty Harry, de Don Siegel, com outro ator no papel de Harry Callahan? Não era preciso que os franceses vissem nele um autor e o consagrassem. Clint já era tudo isso antes de virar o queridinho dos europeus.

(Caderno 2, 28/1/10)

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