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Manaus 2009: McTiernan quer filmar “assassinato” de Orson Welles no Brasil

Luiz Zanin Oricchio

12 de novembro de 2009 | 19h03

Manaus — John McTiernan, um dos papas do cinema de ação, revelou um novo e inusitado projeto – The Assassination of Orson Welles (O Assassinato de Orson Welles), com filmagens no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro.

No que consiste esse projeto? McTiernan se empolga e se emociona ao falar: “O que Welles sofreu durante sua estada no Brasil foi um verdadeiro assassinato cultural, que tem por réu a imprensa norte-americana da época”, diz. McTiernan lembra que Welles veio em 1942 ao Brasil para filmar um documentário chamado It’s All True (É Tudo Verdade), que nunca foi concluído. “Enquanto estava aqui, foi difamado pela imprensa norte-americana, que o acusava de ter arrumado esse pretexto para não participar do esforço de guerra”, diz. O diretor de Cidadão Kane nunca teria se recuperado dessas calúnias, que dificultaram e quase inviabilizaram sua carreira posterior no cinema.

Esses e outros fatos teriam sido revelados pelo próprio Welles em entrevista que concedeu a um canal de televisão americano pouco antes de morrer. “Nele, ele solta os demônios e fala tudo o que tinha engolido durante todos aqueles anos”, conta McTiernan, que já tem o roteiro pronto e espera financiamento para transformá-lo em filme.

O Estado conversou com o diretor norte-americano durante uma viagem de barco pelo Amazonas, rumo ao “encontro das águas” entre os rios Negro e Solimões. Ao ver a nítida linha divisória entre as águas escuras do Rio Negro e as barrentas do Solimões, McTiernan lembrou que as águas do Mississipi se parecem com as do Solimões. “São dessa mesma cor”. O passeio faz parte das atividades de lazer do Amazonas Film Festival e o tempo gasto no barco costuma ser empregado em entrevistas com os convidados. McTiernan está em Manaus na condição de presidente do júri de ficção.

No marasmo da viagem e sob a sauna amazônica, a entrevista corria morna e cordial, até que o assunto Orson Welles entrou em pauta, meio que pelas portas dos fundos da conversa. Até então discutia-se o cinema de ação, gênero no qual McTiernan é mestre reconhecido com títulos como Predador, Duro de Matar, Caçada ao Outubro Vermelho e O Último Grande Herói, entre outros. McTiernan dizia coisas sensatas e inteligentes, como homem culto que é (um diretor de filmes de ação não precisa ser um cavernícola). Afirmou que gostava de heróis ambíguos e irônicos simplesmente porque “é esse tipo de gente que prefiro na vida real, seres cheios de nuances e surpreendentes”. E, por falar nisso, ele certamente surpreendeu mais de um jornalista ao revelar qual é a sua fonte permanente de inspiração: “Shakespeare. Está tudo nele, da tragédia à comédia. Quer história de ação mais sangrenta e completa do que Macbeth? E, mesmo assim, é um texto cheio de humor, em partes inesperadas da peça”.

Quando a pergunta recaiu sobre os projetos de futuro, o olhar do diretor de O Curandeiro da Selva, ambientado na Amazônia, se iluminou. Welles, o grande saltimbanco shakespeariano, entrava em cena na conversa. McTiernan lembrou que, além da fofoca maldosa da imprensa norte-americana, o cineasta tinha contra si suas preferências pessoais. “Ele gostava da gente do povo, dos trabalhadores, daqueles que dão duro para ganhar a vida e não dos senhores do mundo; isso não pegava bem com os patrões”. Por isso, em seu documentário, que fazia parte da política da boa vizinhança de Roosevelt durante a 2ª Guerra Mundial, Welles filmou a história de um pequeno camponês no México e mais dois episódios brasileiros – o dos jangadeiros e o carnaval carioca.

Welles chegou ao Brasil com a parte mexicana já pronta, e a chamou My Friend Bonito. Aqui, ouviu falar da história dos jangadeiros cearenses que, liderados pelo mitológico Jacaré, haviam viajado de Fortaleza até o Rio numa embarcação precária para reinvindicar seus direitos trabalhistas ao presidente Getúlio Vargas. Foram recebidos como heróis. Welles reencenou a história e, durante as filmagens, ocorreu um acidente fatal com Jacaré, que, ao interpretar a si mesmo, desapareceu levado por uma onda na entrada da Baía da Guanabara. Welles filmou ainda cenas do carnaval carioca. Subia os morros ciceroneado por Grande Otelo e Herivelto Martins, andava pelas favelas, bebia e conversava com as pessoas pobres, com os negros brasileiros. “Era de gente assim que ele gostava”, reafirma McTiernan.

À medida em que filmava, Welles enviava os copiões para os Estados Unidos. E, quanto mais viam o material, menos os produtores gostavam do futuro filme. Não fora para isso que tinham mandado Welles ao México e ao Brasil. Acabaram chamando-no de volta e o filme nunca foi concluído. O material encontrado mais tarde, uma série de latas de negativos abandonada, foi montado depois da morte de Welles e, ainda que fragmentário, parece nada menos que magnífico.

McTiernan lembra também que, ao vir para o Brasil filmar It’s All True, Welles deixou o copião do seu segundo longa-metragem, Soberba (The Magneficient Ambersons) em processo de montagem em Hollywood. E o resultado final não agradou em nada ao cineasta. Para ele, seu filme foi destruído pelos produtores. “Era para ser melhor que Cidadão Kane e tornou-se uma obra pífia”, comentou Welles, com senso crítico talvez exagerado.

Após todos esses incidentes fatais – a calúnia da imprensa, o fracasso de It’s All True e a destruição de Soberba – a carreira de Welles tornou-se um inferno. Para financiar seus projetos, viu-se obrigado a trabalhar como ator em filmes de quinta categoria. Passa o tempo batalhando dinheiro ao invés de criar. Em entrevistas, Welles dizia que havia gastado 80% da sua vida e energia em convencer produtores a financiar seus projetos. Muitos dos quais não se realizaram, enquanto outros ficaram incompletos, como sua versão de Dom Quixote, por exemplo. Na longuíssima entrevista que concedeu a Peter Bogdanovich, Welles se lembra de que a origem de todas as suas infelicidades está em seu “filme brasileiro.” É justamente essa a história tão trágica quanto estupenda, de um dos maiores mestres do cinema de todos os tempos, que John McTiernan, o diretor de filmes de ação, justamente ele, pretente recuperar. Nunca se deve subestimar as pessoas.

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