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Malu de Bicicleta

Luiz Zanin Oricchio

06 de fevereiro de 2011 | 14h54

Não existem gêneros malditos e, para quem acredita em diversidade, uma
comédia romântica, com possibilidade de diálogo com o público, pode
ser mesmo um bom programa. É o caso de Malu de Bicicleta, filme
baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva (colunista do Caderno 2) e
dirigido por Flávio Tambellini.

O engraçado é que a história revive de forma sutil a surrada dialética
entre São Paulo e Rio de Janeiro. Luiz Mário (Marcelo Serrado) é o
galinhão paulista, empresário da noite que, perseguido por uma
ex-namorada, resolve dar um tempo no Rio. Na ciclovia, é atropelado
(no sentido literal e metafórico) por uma beldade carioca – a tal
Malu, vivida e muito bem encarnada por Fernanda de Freitas. Começo de
uma história de amor, desenvolvida entre as duas cidades e conturbada
por cenas de ciúmes e traições reais ou imaginárias.
O que salva tudo isso do óbvio? Humor sutil, bons diálogos, um elenco
afiado, tudo isso sob coordenação de uma direção que não faz questão
de se exibir. Tambellini sabe que não está fazendo “filme de arte”.
Precisa se comunicar. Deixar a história fluir. Assim, qualquer
penduricalho é eliminado. Tudo parece muito simples. E é. Sem ser
simplório, que é sempre o risco quando se deseja fazer algo de fato
voltado para o público.

Há a dupla de protagonistas, que funciona muito bem. Tem química.
Serrado faz o tipo meio cafajeste de conquistador, mas ao mesmo tempo
carente, o que lhe rende tempero irresistível para as moças. Curiosas
a respeito do conquistador e, ao mesmo tempo, dispostas a acabar com
sua carreira. Fernanda tem beleza meiga, nada agressiva, mas que não
deixa indiferente o sexo oposto. É crível que se tenha ciúmes de tal
criatura. Ainda mais quando se tem a cabeça sempre cheia de más
intenções, como é o caso da do personagem Luiz Mário. O ciúme, no mais
das vezes, é apenas isso: projeção sobre o outro daquilo que meio
inconscientemente desejamos, isto é, dar uma puladinha de cerca. O
filme não ignora esse fato psicologicamente claro: Luiz Mário é
inseguro porque, sendo um predador, vê em cada homem o semelhante de
si mesmo.

Inútil dizer que Malu de Bicicleta não insiste muito nesse mundo
psicológico do seu protagonista. Ele fica implícito, de modo latente,
de maneira a não atravancar o andamento da comédia romântica, que é o
que de fato interessa. A “mensagem”, se existe, vem de maneira
subliminar.

Se o duo principal toca por música, a verdade é que alguns
coadjuvantes roubam cenas. Maria Manoella, como a namorada ciumenta e
violenta, está muito divertida. E o grupo de amigos de Luiz Mário, que
o ajudam a tocar a casa noturna e funcionam como mix de conselheiros e
seguranças, responde por alguns dos momentos mais divertidos. Entre
eles, o grande ator Marcos Cesana, que morreu com 44 anos de idade em
maio de 2010.

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