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Maldita testosterona

Luiz Zanin Oricchio

13 de março de 2008 | 19h47

É o que a Hillary Clinton deve estar pensando. Depois de agüentar as tripulias do marido no Salão Oval da Casa Branca com a estagiária, ainda sofre as conseqüências do caso Eliot Sptizer, e num momento difícil da disputa com Obama. É constrangedor, sobretudo numa sociedade puritana (quer dizer, de dupla moral), que costuma jogar para debaixo do tapete esse novelo humano que é a sexualidade.

O caso de Spitzer é interessante pelo que tem de paradoxal e exemplar. Parece que ex-governador era tido como um paradigma de retidão moral, até ser pego com boca na botija, ou melhor, com as calças na mão. Mas é assim: quanto mais moralista na aparência, mais devasso no íntimo, como ilustram alguns personagens de Nelson Rodrigues. Não há obsceno maior do que o casto, dizia um desses tipos.

Lembro de outros episódios, mais antigos: o caso Profumo, na Grã-Bretanha, que fez a fama instantânea de uma prostituta chamada, se não me engano, Christine Keller. Virou até filme. Já os irmãos Kennedy – John e Bob – eram tidos como garanhões de primeira linha, e nada aconteceu com eles, pelo menos nesse domínio. Até com Marilyn Monroe andaram. Ambos, parece que em épocas diferentes. Nesses casos, a discrição é tudo. Mesmo que todos saibam, que as puladas de cerca sejam de conhecimento geral, o negócio é não deixar aparecer.

Na França, os “casos” de presidentes e primeiros-ministros sempre foram de conhecimento público. Mas ninguém falava sobre eles e nem dava a menor bola, desde que se mantivessem as aparências. Separa-se vida privada e pública. Quando alguém tenta misturá-las, e transformar sua existência particular em show biz, como fez Nicolas Sarkozy em seu namoro e casamento com Carla Bruni, é punido com queda de popularidade. Outra cultura.

E no Brasil? Não me lembro de escândalo sexual que tenha derrubado algum político de alto coturno. Tudo fica um pouco no registro da ópera bufa, do carnavalesco, como o caso de Itamar e da “modelo-e-atriz” que estava junto com ele em público, e sem calcinha por baixo. Filhos fora do casamento? Sim, há o caso Renan, recente, mas envolve outras coisas, dinheiro não contabilizado para pensões, e faz parte de um contexto de luta política acirrada. Outros figurões, alguns bem graúdos, têm também esses filhos não registrados e deles nada se fala, ou se escreve. Será que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”, como naquela música de Chico Buarque e Ruy Guerra? Seremos ainda mais hipócritas? Ou simplesmente não conseguimos levar tão a sério essas trapalhadas de alcova?

O que pensam disso os nossos moralistas de plantão, em alta no momento?

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