As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Making of de O Palhaço

Luiz Zanin Oricchio

16 de março de 2010 | 19h22

As filmagens de O Palhaço acontecem a uns 40 quilômetros de Campinas. Vai-se por rodovia, mas é preciso enfrentar pelo menos uns 10 quilômetros de estrada de terra, bem prejudicada pela chuva. Sacolejando, se chega o sítio conhecido como Recanto do Caubói. Lugar bonito, cheio de animais, mas com algumas edificações decadentes, quase em ruínas. Um lugar ideal para filmar a chegada do Circo Esperança. É lá que será filmado o diálogo essencial entre Valdemar (Paulo José) e o dono da fazenda, interpretado por Jackson Antunes, em participação especial.

Encontro Paulo José já caracterizado como um patriarca cigano. Chapéu, calças de terno, colete, cheio de anéis e cordões de ouro. O calor é infernal. Paulo não se queixa. Anda com um ventiladorzinho que também borrifa gotículas de água. Pede que eu tire os óculos e feche os olhos, e aciona o ventilador para refrescar o repórter. “Alivia”, diz. O diretor Selton Mello dá as boas-vindas ao set e combina de conversarmos mais tarde, durante o almoço. A parafernália montada é a de hábito na produção de um filme – dezenas de pessoas entre técnicos, atores, extras, fotógrafos e auxiliares. Um batalhão que parece caótico à primeira vista, mas costuma funcionar como orquestra nos momentos decisivos. Todo mundo se abriga do sol, mas ninguém se queixa quando chega a hora de rodar a cena. Nesse momento é imposto um silêncio total.

A cena a ser rodada é fundamental para o desenvolvimento da trama. O circo chega à fazenda e Valdemar (personagem de Paulo José) é recebido pelo dono, Jackson Antunes, que assiste à chegada da caravana de sua varanda, pinicando uma viola. Depois, os dois conversam em uma mesa colocada no lado de fora da casa. O dono oferece uma cachaça a Valdemar, que recusa. Jackson começa a contar a sua história. Diz que foi se meter no negócio do algodão, e perdeu tudo. Ri. E emenda com a frase que dá sentido ao filme: “O gato bebe o leite, o rato rói o queijo, e eu… toco o meu negócio.” Quer dizer, cada qual faz o que sabe, aquilo para o que é talhado e está destinado a fazer. A cena é ensaiada diversas vezes, antes de ser rodada (afinal, na máquina, está uma preciosa película de 35 mm, um luxo em tempos de tecnologia digital). Selton exige o tom justo: “Quanto mais seco, sem enfeite, maior é o efeito das palavras”. Uma duas, dez vezes, até rodar.

É assim o cinema, feito de repetições. E de esperas para entrar em cena. Num intervalo, pergunto a Paulo José se cansa. “Nada, eu nem sinto”. Lembro de uma frase e digo a ele: “O cinema é a arte de esperar”. Ele ri e identifica a citação. “A frase é do Marcello Mastroianni, que era um tremendo gozador. Eu não tenho problema em esperar, levo um livro e pronto”. Além da espera, há a picotagem das cenas e das sequências. A cena em cima foi descrita em ordem direta; quer dizer, é dessa maneira que o espectador irá vê-la na tela. Mas, de fato, foi construída de outro jeito. Primeiro, Antunes chega à mesa, onde já o espera Valdemar. Depois é filmada a saída da mesa, quando o encontro acabou. Essas duas cenas são feita de manhã e não contêm diálogos. Apenas à tarde, após o almoço, é que será feita a cena, com o diálogo. Montadas, as três cenas farão a sequência completa. Talvez dure uns dois ou três minutos na tela. Consumiu um dia inteiro de trabalho.

E por que a cena e a tal frase é tão importante? “Porque o projeto do filme parte de uma dúvida sobre a minha carreira de ator”, conta Selton. “Eu estava em Londres, filmando Jean Charles, quando me pintou essa sensação: eu não estava onde queria, fazendo o que queria; usei isso a favor do personagem, mas a dúvida ficou.” Seria uma crise vocacional?

De certa forma sim. E a forma de ficção que encontrou (escreveu o roteiro, junto com Marcello Vindicatto, a mesma parceria de Feliz Natal, primeiro longa de Selton) levou-o ao mundo do circo. Lá, o seu personagem, Benjamim, é o enfrenta a crise de identidade e vocacional. E se mede com o pai, uma personalidade forte, autoritária. “O filme é também esse momento de passagem de uma geração para outra, sempre problemática”. Em meio a esse ambiente tumultuado, a frase do fazendeiro reverbera ao longo da história. Como o gato bebe o leite e o rato come o queijo, cada um de nós deve se dedicar àquilo que sabe fazer melhor e lhe dá prazer.

Em relação ao seu primeiro longa-metragem, o belo e soturno Feliz Natal, Selton diz que pretende fazer de O Palhaço um filme “mais aberto ao público, mais solar e para cima”. Não se arrepende do tom do primeiro longa, “fiz o filme que queria na ocasião”, mas agora o momento é outro. “Sem nenhuma presunção, sou uma pessoa conhecida, pela imagem da televisão e do cinema: encontro as pessoas na rua e elas dizem que querem ver o meu trabalho; espero que este filme chegue a elas”.

As filmagens prosseguem até dia 13 de abril e, além de Campinas e Paulínia, serão realizadas em Ibitipoca, Minas Gerais, que será visitada pelo Circo Esperança. Que não tem esse nome à toa.

Tendências: