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Mais umas palavrinhas sobre o Oscar-2011

Luiz Zanin Oricchio

01 de março de 2011 | 09h52

Ao contrário do ano passado, quando o favoritíssimo Avatar foi derrotado pelo azarão Guerra ao Terror, desta vez a cerimônia do Oscar não reservou nenhuma grande surpresa para o espectador que teve a paciência de segui-la madrugada adentro. Como todos pareciam saber, venceu O Discurso do Rei. E venceu bem. Talvez bem até demais

O que talvez seja a pequena surpresa em si. Como um filme apenas mediano e correto pôde ganhar em quatro das cinco categorias principais – melhor filme, direção (Tom Hopper), ator (Colin Firth) e roteiro (David Seidler)? Para fazer o que os entendidos chamam de “Big Five” faltou-lhe apenas a estatueta de atriz, mesmo porque esta já estava previamente reservada a Natalie Portman por sua composição um tanto trivial em Cisne Negro.

Sim, e todo o resto seguiu o script. Três estatuetas para Rede Social. Prêmios técnicos para o “arrasa-quarteirão e cabeça” A Origem. Coadjuvantes para O Vencedor. Animação para Toy Story 3. Documentário para Trabalho Interno, derrotando o “nosso” Lixo Extraordinário, o que, por outro lado, nos poupa da missão de discutir se teríamos ou não ganhado o Oscar. Filme estrangeiro para o dinamarquês Em um Mundo Melhor, consagrando as boas intenções. Figurino para Alice no País das Maravilhas e maquiagem para Lobisomem, que é o que eles têm de melhor. E, claro, nada de nada para um dos melhores concorrentes, Bravura Indômita, dos irmãos Coen, que haviam vencido fazia pouco com Onde os Fracos não Têm Vez e, neste ano, estavam lá para fazer figuração.

Pelas indicações já se sabia e a premiação confirma que estamos vivendo um momento pobre e muito conservador da indústria do cinema. Lidando com investimentos cada vez mais altos, a indústria tende a ser cautelosa em suas aplicações. Desvios em relação ao gosto médio são cada vez menos tolerados. Tudo deve ser controlado, das pesquisas de interesse que orientam os “novos” produtos até sua divulgação na mídia em escala mundial. Tudo planejado. Hollywood virou fábrica de salsichas a partir do momento em que financistas tomaram conta dos estúdios.

Isso não quer dizer que a Academia, que é uma espécie de corporação de ofício do mundo cinematográfico, não aposte lá e cá em alguma exceção, apenas para mostrar que desperta do seu sono e premia a criatividade, vez por outra. Desta vez, dormiu de vez. De outra forma, como explicar que o independente Inverno da Alma tenha saído de mãos abanando?  Visto de perto, esse retrato cruel da realidade de uma parte dos EUA era o que de mais estimulante havia no cardápio proposto pelo Oscar deste ano. Foi ignorado.

A cerimônia, em si, esteve em consonância com o marasmo da premiação. Os vestidos, os discursos de agradecimento, as homenagens, e até as gafes – tudo parecia requentado. Esse tom, insípido, inodoro e incolor fez a cerimônia parecer mais longa do que de fato foi. Arrastou-se. Não se viu um momento de emoção genuína. Com exceção da de Charles Ferguson, de Trabalho Interno, as falas foram burocráticas e pobres, como se o mundo lá fora não existisse. Quando escapou ao previsível, a cerimônia resvalou para o mau gosto como na fala de Colin Firth, que, alto e bom som, e sem gaguejar, apelou para a escatologia como forma de fazer graça.

O sistema parece acomodado e satisfeito consigo mesmo. Isso não é bom para ninguém. Nem para ele.

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