As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mais uma vez, o mando de campo

Luiz Zanin Oricchio

08 de abril de 2008 | 09h23

Todo ano é a mesma conversa fiada, e você já deve até estar acostumado. Os dois jogos vão ser no Morumbi ou os demais clubes têm o direito de mandar as partidas decisivas em seus próprios estádios? E todo ano são usados os mesmos argumentos por quem detém o poder: é uma questão de segurança, o gramado é melhor, a renda é maior, o futebol é profissional, negócio é negócio, etc. Quem agüenta?

Ainda mais quando começam a puxar histórias do passado para argumentar que o mando de campo não é fator decisivo; que Palmeiras, Santos e Corinthians já foram campeões no Morumbi, que o São Paulo já perdeu em sua casa, etc. e tal. Como se alguém houvesse dito que o mandante ganha sempre. Fosse assim, nem precisaria haver a disputa. Agora, que jogar em casa é fator positivo a mais para qualquer time, parece não haver dúvida. Pelo menos entre pessoas honestas e de boa-fé.

Dizer que jogar em seu estádio é irrelevante me parece o máximo do cinismo. Significa encontrar uma desculpa esfarrapada para justificar o autoritarismo da Federação. Avalie, por exemplo, a diferença de desempenho do Santos dentro e fora da Vila Belmiro para ver se o fator campo não tem influência no resultado, apenas para citar o caso de um time que ficou fora das finais, mas é quase sempre prejudicado por essa manipulação dos mandos de campo. Perguntem a um argentino, ou melhor ainda, a um brasileiro, se é a mesma coisa enfrentar o Boca Juniors dentro da Bombonera ou fora do seu estádio. E assim por diante.

Penso que o foco do debate deveria ser outro. Deveríamos talvez deslocar a discussão da conveniência para a justiça. Aliás, fala-se muito em justiça no mundo do futebol, mas ela é pouco praticada. Basta ver o que sofrem os times pequenos na mão da arbitragem (alguém mandaria repetir aquele pênalti se Rogério Ceni estivesse defendendo e não cobrando? Mas, como era o pobre Juventus…). Enfim, para ir direto ao ponto: quando chega a hora da onça beber água, com apenas quatro classificados para disputar o título, alguns preceitos básicos deveriam ser respeitados. Cada clube exerce o mando em seu estádio. Se esse estádio não tem condições de segurança ou gramado adequado, não deveria ter sido usado ao longo do campeonato. No entanto, se por razões econômicas um clube resolver abrir mão do seu direito para jogar no campo do adversário, que exerça a opção e responsabilize-se por ela diante da sua torcida. E acabou-se.

Tudo parece muito simples. O São Paulo tem o direito de jogar em seu campo, o Palmeiras tem o direito de jogar no Palestra, Guará e Ponte Preta têm o sagrado direito de disputar esses jogos tão importantes para suas histórias em seus estádios e diante de suas torcidas. Jogar no Morumbi pode até ser mais conveniente. Mas será justo?

Isso tudo é tão óbvio que nem deveríamos perder tempo discutindo o assunto. E, no entanto, ele retorna, a cada final de Campeonato Paulista. Uma pergunta não pode calar: por que os mesmos cartolas, que agora reclamam de injustiça, assinam o regulamento antes do campeonato, atribuindo à Federação o direito de escolha dos estádios para semifinais e finais? Não seria mais lógico não assinar esse tipo de cláusula leonina? Mas então talvez não houvesse lugar para acordos de bastidores pouco claros. Sabe quem sai perdendo com tudo isso? Você, torcedor. E, por tabela, o próprio futebol.

(Coluna Boleiros, 8/4/08)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.