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Mais de Wilson Martins

Luiz Zanin Oricchio

01 Fevereiro 2010 | 08h58

Aqui,o texto que mandei ontem ao jornal e está publicado na edição de hoje:

O crítico literário Wilson Martins morreu sábado, em Curitiba, aos 88 anos. Ele faleceu de conseqüências de uma cirurgia para retirada da bexiga, no Hospital Nossa Senhora das Graças, na capital paranaense, cidade onde era radicado havia muitos anos, apesar de nascido em São Paulo, em 1921.

Wilson Martins trabalhou em vários periódicos brasileiros, assinando seu rodapé de crítica literária no Estado, onde teve seu primeiro emprego, Jornal do Brasil, O Globo e Correio do Povo, entre muitos outros. Publicou inúmeros ensaios no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.

Autor de diversas obras, destacou-se por sua monumental História da Inteligência Brasileira, composta de diversos volumes. Igualmente fundamental é a sua Crítica Literária no Brasil, história da atividade crítica em nosso País, exposta em dois sólidos volumes de análise cerrada. Com suas obras, Martins ganhou alguns dos principais prêmios literários nacionais, com o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras.

Wilson Martins foi também professor de Literatura Francesa na Universidade Federal do Paraná e lecionou por 26 anos em Nova York. No entanto, apesar da sólida carreira acadêmica, era na crítica literária jornalística que se sentia mais em casa. Era um crítico de “linha de frente”, quer dizer, aquele que analisa obras no calor da hora, assim que os livros saem do prelo, ao contrário de colegas acadêmicos, que esperam pela decantação das obras por décadas antes de pronunciar-se.

Foi nesse âmbito jornalístico, do texto escrito sob pressão e contra o tempo, que se tornou conhecido e amealhou respeito geral – mesmo daqueles que desaprovavam suas opiniões e às vezes o tachavam de conservador. Martins nunca se eximiu de escrever o que pensava, como, por exemplo, quando desaprovou o romance O Fotógrafo, de Cristóvão Tezza, que admirava, mas dizia conter palavrões em excesso.

Quando completou 80 anos, a editora Top Books lançou um volume em sua homenagem, significativamente intitulado Mestre da Crítica. Nele, escrevem colegas ilustres como Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Edson Nery da Fonseca, Antonio Candido e outros, tendo por tema a carreira do crítico Wilson Martins, ou assuntos literários em geral.
Mas o melhor dos ensaios do livro é assinado pelo próprio homenageado. Com o título de O Crítico por Ele Mesmo, Martins faz um resumo de sua vida profissional, escrito com despojamento, clareza e elegância. O texto serve como testamento de uma carreira e também pode funcionar como inspiração a quem pretenda segui-la, apesar dos percalços atuais do jornalismo cultural.

Martins se dizia educado pelo “sistema antigo, de rigor, disciplina e obediência, sem excessos de complacência”. Sua base cultural foi formada em especial pelo autodidatismo. Lia sem parar, desde criança, e, mais tarde, escrever sobre aquilo que lia lhe pareceu tão natural como beber um copo d’água. Seu primeiro emprego como crítico foi no Estado de S. Paulo, em substituição ao então mitológico Sergio Milliet.

Desde o inicio, Martins não negligenciou o fato de que para apreciar uma obra era preciso compará-la. E o cânone literário, hoje descartado como politicamente incorreto, seria a melhor tábua de comparação disponível. Mesmo porque ele não foi formado de maneira arbitrária, mas por um consenso que vem de um longo assentimento. Shakespeare, Proust, Machado de Assis não ocupam o lugar que ocupam por acaso. O alvo dessas críticas de Martins era o multiculturalismo e o relativismo, que coloca toda e qualquer obra em pé de igualdade. Isso seria nivelar a cultura por baixo, segundo entendia.

Portanto, é a qualidade da obra que deveria nortear a crítica, mesmo que seja tão difícil distinguir, no novo, o que é bom do que não é. Tentá-lo, e chegar o mais próximo possível da “verdade”, é a tarefa do crítico, como ele a concebia. Apontar o que é bom em sua época, o maior desafio daquele que escreve sobre obras alheias. O crítico faz suas apostas. A posteridade julga as obras, e o próprio crítico.

Nesse ponto, como se vê, Martins valorizava seu ofício de crítico “de fronteira”, distinguindo-se claramente dos colegas de universidade. Estes escrevem ensaios. Você pode escrever um ensaio sobre Graciliano Ramos, ou sobre James Joyce, sabendo que milhares de outros já escreveram a respeito. “O pesquisador universitário só escreve um longo ensaio sobre José de Alencar depois que a crítica disse que José de Alencar é um autor que merece um longo ensaio.” O ensaísmo aparece depois que a crítica já disse o que tinha a dizer. A crítica é trabalho de desbravadores e se faz no calor da hora.

Desse modo, colocar sua posição diante de um livro novo, recém-saído do prelo, é uma atividade de risco. O que faz da crítica uma atividade polêmica. Embora o crítico não deva buscar a polêmica por si, precisa sustentá-la, se for o caso. E seu aliado natural será o leitor, pois nenhuma atividade intelectual, inclusive a crítica, se sustenta se não tiver um leitor cúmplice e inteligente que com ela dialogue e participe da polêmica. A exemplo do romancista, o crítico também precisa de um público para existir.

Martins era um profissional rigoroso, mas não se definia com um crítico “científico”, mesmo porque duvidava que essa categoria existisse. Tinha medo de que disciplinas como o estruturalismo e a semiologia gerassem tal grau de certeza no intérprete que o levasse a posições dogmáticas e fechadas. A atividade crítica como ciência exata é, segundo Martins, uma indestrutível quimera do pensamento literário. Refere-se à utopia da opinião que não pode ser contraditada por outra opinião. O que não implica no extremo oposto, o relativismo
selvagem, o vale-tudo opinativo.

A crítica é o desenvolvimento por escrito de uma opinião, assinada por alguém que realmente conheça o assunto e tenha a embasá-lo uma cultura geral tão vasta quanto possível. Isso implica, também, a recusa da especialização – “quem sabe só literatura não sabe nem literatura”, diz. Mas a erudição de nada vale sem a intuição, e vice-versa.

Sempre provocativo, Martins se dizia “o último crítico literário em atividade”. Talvez tenha sido mesmo.