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Luiz Zanin Oricchio

24 de março de 2011 | 10h10

Os mais lindos olhos violeta do cinema se fecharam. Atriz de beleza extraordinária e saúde frágil, Elizabeth Taylor teve papéis em filmes notáveis como Um Lugar ao Sol, Assim Caminha a Humanidade, de George Stevens, Gata em Teto de Zinco Quente, de Richard Brooks, O Pecado de Todos Nós, de John Huston, entre mais de uma centena de participações nas telas. Ganhou dois Oscars, um por Disque Butterfly 8, em 1960, outro por Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, em 1966.

Foi, talvez, a Cleópatra (sob direção de Joseph Mankiewicz) mais conhecida de todos os tempos, mas se alguém tiver de escolher um único filme seu para figurar como o primeiro absoluto em uma antologia dos melhores, seria sem dúvida Quem Tem Medo de Virgínia Woolf, com direção de Mike Nichols, adaptado de uma peça de Edward Albee, na qual contracenava com Richard Burton, seu marido por duas vezes.

Sim, duas vezes. Elizabeth e Richard fizeram nove filmes juntos e mantiveram o casamento mais tempestuoso de que se tem notícia em Hollywood. Suas brigas, bebedeiras, separações e reatamentos, enchiam, com folga, as colunas de mexericos dos jornais do mundo todo. Infeliz, o casal era a alegria e fonte de renda dos paparazzi. Reconciliações, movidas a presentes caros, como diamantes e iates, faziam ferver a imaginação dos fãs. Em 1974, o separam-se formalmente. Mas, no ano seguinte, anularam o divórcio e voltaram a se casar, na África do Sul. Delícia para os tabloides. E para a própria indústria, que sempre lucra quando tem os holofotes colocados sobre seus maiores astros e estrelas. O ser humano sofre, o business agradece.

Pois bem, parte considerável do encanto de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? vem da sensação de que Elizabeth e Richard, ao interpretarem com tanta garra seus papéis, estariam aproveitando a ocasião para acertarem suas contas em público. O filme não seria mal definido como um psicodrama da dupla. Maravilhoso em vários aspectos, põe em cena a relação autodestrutiva de um casal, levado por si mesmo à beira do abismo. É bom cinema, a partir de um grande texto. Mas não deixa também de ser uma espécie de lavagem de roupa suja, exposta diante do público mundial. Como costuma acontecer, a ficção falava da vida pessoal da dupla bem mais do que ela deixava transparecer em seus escândalos notórios. O trabalho de Liz como Martha, em Virginia Woolf, deu-lhe o segundo Oscar de melhor atriz.

O primeiro, ela havia conquistado anos antes por Disque Butterfly 8, de Daniel Mann, em 1960. Mas há quem diga que este prêmio viera como compensação, pois Liz já deveria ter levado sua primeira estatueta por sua indicação em Gata em Teto de Zinco Quente, de 1958, de fato um dos seus melhores papéis. Acontece que, na época da premiação, ela estava envolvida em um dos seus costumeiros escândalos matrimoniais, e isso pode tê-la prejudicado junto à conservadora comunidade de Hollywood. Ela havia enviuvado do produtor Mike Todd, que morreu num acidente de aviação, e consolou-se com Eddie Fisher, então casado com a atriz Debbie Reynolds, de quem era amiga.

A atriz casou-se oito vezes, mas a união mais famosa foi mesmo a com Richard Burton, que conheceu no set de Cleópatra, em 1963. Apaixonados, Antonio e Cleópatra, aliás, Richard e Liz, desfizeram seus respectivos casamentos para ficarem juntos. E teve início a turbulenta história de amor, uma das mais notórias no show biz do século 20.

Considerada a última grande estrela da fase de ouro de Hollywood, Elizabeth Rosemond Taylor na verdade nasceu em Londres, filha de pai antiquário. A família mudou-se para os Estados Unidos em 1940, fugindo da 2.ª Guerra Mundial, iniciada no ano anterior. Bonita de doer desde criança, Liz foi logo descoberta pela indústria do cinema e estreou aos 11 anos em A Força do Coração (1943), ponto de partida dessa longa e acidentada carreira artística.

Casamentos e escândalos à parte, sua imagem se torna perene na memória do cinema, e não apenas pela beleza fora do comum. Apesar de tê-lo desgastado numa fieira de filmes menores, Liz tinha um real talento interpretativo e o demonstrou mais de uma vez. Seus papéis em Um Lugar ao Sol e Assim Caminha a Humanidade e De Repente, no Último Verão são marcantes. Os de Gata em Teto de Zinco Quente e Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? a colocam na galeria das grandes atrizes dramáticas. Buscava nesses papéis expressão para o mal-estar diante da vida que era bem o seu. Alcoolismo, conflitos sexuais, impulso de autodestruição foram sentimentos de suas personagens dilaceradas,

Maggie Pollitt, em Gata em Teto de Zinco Quente, e Martha em Virginia Woolf. Dois filmes, ambos tirados de peças, uma de Tennessee Williams, outra de Edward Albee, Dois textos para que Liz Taylor interpretasse na tela sua vida fora dela. Projetou-se neles, em profundidade e sem rede de segurança. O público lhe fica devedor.

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