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Mais Coutinho *

Luiz Zanin Oricchio

04 de fevereiro de 2014 | 00h27

Mal passado o trauma da morte trágica de Eduardo Coutinho (1933-2014), o cinema brasileiro terá de começar a fazer o balanço dessa perda que, todos sem exceção, definem como irremediável.

Ora, estamos acostumados a afirmar que ninguém é insubstituível. Mas essa definição simplista não se aplica a um artista complexo e original da importância de Coutinho. Ninguém tem condições de substituí-lo pelo simples motivo de que ele inventou um método de trabalho particular e que servia somente a ele. Talvez fosse muito interessante se Coutinho tivesse deixado um “manual do documentário”. Sua leitura poderia ser muito enriquecedora, mas dificilmente os ensinamentos seriam aplicáveis por outros, porque aquela preciosa e precisa ferramenta de que ele se servia ajustava-se apenas à sua mão.

E essa ferramenta foi sendo forjada tanto pela inteligência como por obra do acaso, se assim chamarmos as circunstâncias históricas sobre as quais não temos o menor controle. Sua obra-prima, Cabra Marcado para Morrer (1964-1984) foi feita assim. Primeiro Coutinho queria filmar a história da morte de um líder camponês, João Pedro Teixeira, usando seus companheiros e a viúva como “atores” de suas próprias histórias. Com o golpe de 1964, as filmagens foram interrompidas e os negativos foram escondidos. Coutinho só retomou esse trabalho 18 anos depois, agora sob a forma documental, tentando localizar os camponeses e, em especial, a viúva de João Pedro, Elizabeth Teixeira, que vivia incógnita numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Norte. Mix de ficção e realidade, Cabra Marcado para Morrer sintetiza todo um período histórico, do início da ditadura ao alvorecer da abertura política.

Ao longo dos anos, Coutinho foi descobrindo que tinha um talento especial de entrevistador. Colocava-se numa postura respeitosa da singularidade alheia, e ouvia com ouvido aguçado de psicanalista. Dessa forma, as pessoas diziam para ele coisas que não confessavam a ninguém. Coutinho conseguia anular a presença em geral atemorizante da câmera e criava um ambiente de familiaridade, em especial com personagens femininos, mas não apenas.

Com isso criou filmes em que a intimidade dos personagens se desvelavam sem que houvesse qualquer invasão de privacidade, tamanho o clima de respeito instaurado entre cineasta e entrevistado. São assim filmes como Santo Forte, Babilônia 2000, Peões, O Fim e o Princípio. Seus personagens são sempre pessoas “comuns”, gente do povo, que ninguém conhece. Simplesmente não se interessava por celebridades ou poderosos. “Não gosto de entrevistar gente que tenha muita coisa a perder”, costumava dizer. Ou seja, gente que precisa medir suas palavras pelas consequências que elas possam ter não funcionavam como personagens. Preferia os anônimos, as vidas chamadas “comuns”, que ele mostrava serem, na verdade, bastante incomuns. Isto é, cheias de riqueza e originalidade.

Essa ferramenta documental altamente burilada levou-o a outra obra-prima, Jogo de Cena, em que atrizes se confundiam a mulheres anônimas interpretando histórias que nunca se sabiam se eram “reais” ou “fictícias”. Entre outras muitíssimas coisas, com esse filme Coutinho mostrava que o imaginário pode ser tão real quanto a realidade e que o sofrimento dos outros pode despertar em qualquer de nós um sentimento de solidariedade e compaixão espontâneas. É um dos filmes mais emocionantes da história do cinema brasileiro.

Mas o sucesso desse trabalho, considerado um ponto de virada na história do documentário mundial, não provocou acomodação em Coutinho. Logo ele resolveu examinar em que medida a música tinha papel relevante na vida emocional das pessoas. E filmou As Canções, em que pedia às personagens que simplesmente cantassem a música que fora mais importante na vida de cada uma delas. O que esse procedimento simples tem de revelador é uma coisa inacreditável.

Num trabalho inesperado, filmou os bastidores da montagem de uma peça de Checkov, em Moscou, um filme que muitos consideraram de impasse, mas que abria novas possibilidades cinematográficas, deixadas inexploradas pela morte do diretor. Coutinho foi um cineasta tão inquieto que deixou como legado um filme virtualmente condenado ao ineditismo – Um Dia na Vida, longo zapping de 24 horas pelas emissoras de TV, montados por ele para compor um painel imaginário da nossa sociedade colonizada pela telinha. Foi exibido apenas nas mostras de cinema de São Paulo e Rio, em sessões sem venda de ingressos.

Aos 81 anos, fumando sem parar e doente de enfisema, Coutinho era mais inquieto e criativo que um jovem de 20 anos. A essa inquietação ele unia o domínio absoluto do seu instrumento, o que só se consegue com a experiência e os anos de trabalho. Inteligente e genial, mestre e inventor – quem poderia substituí-lo? Coutinho permanecerá como marco criativo do cinema brasileiro. Não para ser imitado, pois isso é impossível, mas como fonte permanente de inspiração.

 * Texto escrito para a edição de Ipad do Estadão Noite

 

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