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Mailer

Luiz Zanin Oricchio

11 de novembro de 2007 | 11h23

MANAUS – Estou na Amazônia e sou pego de surpresa pela morte de Norman Mailer. Escrevi sobre ele há menos de uma semana, sobre seu projeto (que me pareceu um tanto delirante) me torno da infância de Hitler, The Castle in the Forest. Que diabos Mailer poderia querer com Hitler? Não estou particularmente curioso para ler este livro e nem vinha gostando muito do que Mailer publicava. Já não fui até o fim de O Fantasma da Prostituta, sobre a CIA. Mas, se pensarmos em obras anteriores…que escritor!

Acho que ninguém das gerações digamos, mais experientes, escapou à influência de livros como Os Nus e os Mortos ou Exércitos da Noite. São relatos de experiências vitais, a da 2ª Guerra e dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Guerras. Mailer tinha muito do repórter, na grande tradição americana que vem de Hemingway e passa por Capote.
Me lembro de ter lido com prazer e pasmo o gigantesco A Canção do Carrasco, sobre o criminoso Gary Gilmore, sentenciado à morte. Acho que aprendi mais sobre a América neste livro que em tantas obras teóricas ou historiográficas que li. É uma radiografia espantosa do país profundo, não o cosmopolitismo idealizado de Nova York. E a vocação de repórter de Mailer foi exercida como poucas vezes na ocasião em que acompanhou o mitológico combate entre Ali e Foreman, no Zaire. A Luta – é esse o título do livro, este conciso – acabou virando documentário de sucesso, Quando Éramos Reis.

Mesmo em obras menores, Mailer era agradável. Refiro-me a Os Machões não Dançam que, se não me falha a memória, ele mesmo adaptou para o cinema e dirigiu o filme.

Mailer encarnava aquele ideal, anglo-saxônico, talvez, do escritor que se compromete com seu tempo, o antípoda do intelectual de gabinete, que não suja as mãos com a rua. Mailer abraça a vida com todo o vigor e depois transporta para o papel alguma coisa entre a experiência adquirida no “campo de batalha” e sua imaginação de artista. Viajou muito, bebeu muito, tinha muitas ex-mulheres, filhos e pensões a pagar. Talvez tenha pagado o preço dessa vitalidade e de todas essas encrencas quando, era essa a acusação, ganhava por palavra escrita e portanto tinha de “esticar” seus livros.

Pode ser verdade. Mas agora pouco importa. Se não escreveu o grande romance do século americano, como sempre se esperou, deixou um conjunto de obras fundamentais. E, cá entre nós, deliciosas para quem gosta de ler. Norman ficará. De quantos se pode dizer o mesmo?

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