Mademoiselle Nouvelle Vague
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Mademoiselle Nouvelle Vague

Luiz Zanin Oricchio

13 de maio de 2009 | 16h26

godard
Acossado, com Belmondo e Jean Seberg

Há 50 anos nascia em Paris a nouvelle vague, onda que provocaria grande agitação no cinema francês e também no dos outros países, Brasil incluído. Para comemorar a data, a Cinemateca Brasileira promove a mostra Mademoiselle Nouvelle Vague, trazendo o simbólico número de 50 filmes para lembrar a data. Um filme por ano decorrido. E com o título escolhido para lembrar que esta senhora madura nasceu sob o signo da juventude e portanto conserva o seu frescor.

Claro que nenhuma retrospectiva da nouvelle vague pode deixar de fora os filmes do “núcleo duro”, formado por Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer e Claude Chabrol. Assim, lá estão Acossado, Nas Garras do Vício, Os Incompreendidos, O Signo do Leão. Mas nota-se a falta de obras de ficção de Jacques Rivette, o quinto componente do grupo e autor de um ainda inédito no Brasil Ne Touchez pas la Hache, baseado em Balzac. Rivette comparece apenas com o documentário Jean Renoir, o Patrão, em DVD, registro de uma divertida conversa entre Renoir e o ator Michel Simon.

A ausência de obras de ficção de Rivette é compensada pela presença de algumas raridades. Entre elas, Adieu Philipine, de Jacques Rozier. Em recente entrevista ao Estado, o atual diretor da revista Cahiers du Cinéma, Jean-Michel Frodon, apontou Rozier como um dos integrantes injustamente esquecidos da nouvelle vague. “Todos os seus filmes devem ser relembrados e, em especial, Adieu Philipine”, disse na ocasião. O estudioso Jean Tulard fala de Rozier como de um “cineasta que tem realmente lugar à parte na nouvelle vague, na condição de autor maldito”. Fala também do muro de indiferença que cercou Rozier, o que torna ainda mais importante essa atração da mostra. Mais ainda porque seu assunto é a Guerra da Argélia, tema que foi pobremente tratado pela nouvelle vague “oficial”, de maneira geral avessa à política com exceção do Godard de certa fase.

Também estão incluídos na mostra alguns integrantes periféricos, mas de grande prestígio, como Alain Resnais, com Hiroshima, Meu Amor, Jacques Démy, com Lola, Louis Malle, com Os Amantes e Ascensor para o Cadafalso. Resnais, de fato, não poderia faltar nessa retrospectiva. Afinal, há 50 anos, ele emocionava o Festival de Cannes com Hiroshima, filme chocante no melhor sentido do termo. E agora, veterano, retorna à Croisette com Les Herbes Folles, aos 86 anos.

Outra decisão interessante dos curadores foi incluir os precursores. Como qualquer movimento que se preze, também a nouvelle vague promoveu sua ruptura e elegeu seus pais fundadores. A ruptura foi com o “cinéma de qualité” francês, composto de adaptações de obras literárias de prestígio. E o elo com a tradição foi reatado através de duas figuras, Jean Renoir e Jean Vigo. De Vigo, foram programadas Zero de Comportamento e O Atalante. De Renoir, além do documentário de Rivette, há o raro Divertimento Campestre (Partie de Campagne) e Boudu Salvo das Águas, interpretado por Michel Simon.

Fechando a rede de referências, vem o documentário Cidadão Langlois, de Edgardo Cozarinsky, que resgata a figura de Henri Langlois, mitológico diretor da Cinemateca Francesa. Cabe lembrar que a nouvelle vague foi um movimento que nasceu de uma cinemateca e de uma revista, a Cahiers du Cinéma. Leva, para o bem e para o mal, a marca de cinefilia militante como seu emblema maior.

(Caderno 2, 13/5/09)

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