Mademoiselle Chambon
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Mademoiselle Chambon

Luiz Zanin Oricchio

14 de maio de 2010 | 16h15

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Com Mademoiselle Chambon, o diretor Stéphane Brizé faz um registro amoroso da vida da província na França. Sim, é também, e principalmente, um filme de amor, mas que só ganha sentido quando se desenvolve num ambiente mais reservado do interior.

Um dos personagens, Jean (Vincent Lindon), é um pacato pedreiro. Casado, ele é bom pai (tem um filho), bom marido e ainda cuida do seu próprio pai, idoso. Brizé toma tempo para descrever o personagem. Por exemplo, quando Jean visita seu pai, preso a uma cadeira de rodas, e passa longo tempo lavando seus pés. É um ato de caridade e amor filial. Também é longa a sequência em que Jean, convidado pela professora do filho, fará uma palestra para os alunos, explicando em que consiste a sua profissão de pedreiro.

Sim, a professora. Ela é Véronique Chambon (Sandrine Kiberlain), mestra substituta, que passa um ano em uma cidade, depois arruma as malas e é despachada para qualquer outra região da França. Jean é a estabilidade; Véronique, a itinerância, a mudança permanente de lugar. Ela tem uma janela com defeito em casa e chama Jean para fazer a reforma. Ela toca violino; Jean gosta da música. Ele é enraizado no interior; ela provém da região parisiense. Todo um jogo de oposições, bem francês no caso, aí se insinua, em particular na dialética Paris versus provence. Na França, o que é a “provence”? Simples: tudo o que não é Paris. Toda uma experiência social se joga nessa dicotomia simples.

Jogada assim, essa oposição poderia fazer de Mlle. Chambon um filme-clichê. Não é assim. E não o é pela grande delicadeza com que Brizé aproxima esse par de contraditórios. Não há distância social na França entre um pedreiro e um professor. A distância entre os personagens talvez seja mais cultural. Mas, como se sabe, esta não é suficiente para anular uma atração mútua. O problema estará em outra parte e diz respeito à estabilidade, à disposição em assumir riscos e jogar tudo para cima para embarcar naquilo que, no fundo, é uma aventura.

Para interpretar esse impasse, Brizé conta com um par de ótimos atores. Em especial Lindon, que, com poucas palavras, mas muita expressão visual, transmite ao espectador todo o dilema que enfrenta. Para o cinema-clichê, o homem apaixonado é sempre alguém alegre, exultante. Em Mlle. Chambon vemos esse homem angustiado, dividido entre impulsos que se anulam mutuamente. De um lado, a vida que construiu e com a qual se sente feliz, mas talvez não de maneira integral. De outro, uma promessa de felicidade, mas que só se pode cumprir ao preço da infelicidade alheia. O filme funciona assim, entre a culpa e o desejo. Pode até parecer meio fora de moda, num tempo que acredita que todos os desejos podem ser satisfeitos sem qualquer entrave. Na verdade, não funciona desse jeito e as pessoas continuam a ter de fazer opções graves e dolorosas, vivam no interior ou na cidade grande. Esse delicado filme de câmera nos lembra dessa contingência.

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