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Madame Bovary, Lady Chatterley: o permanente fascínio por essas mulheres

Luiz Zanin Oricchio

08 de junho de 2008 | 21h35

Madame Bovary, Lady Chatterley: 71 anos separam essas duas mulheres. Quando “nasceram”, imediatamente se tornaram sinônimo de escândalo. Afinal, uma e outra ousaram trair seus maridos. Isso em sociedades patriarcais, pouquíssimo condescendentes com liberalidades dessa ordem.

Bovary e Chatterley também marcaram presença no cinema. Suas histórias ainda encantam. Suas personagens seduzem. Seu destino ainda nos comove. Grandes diretores delas se ocuparam. Jean Renoir é um deles, Vincente Minelli, outro. A Madame Bovary de Renoir é de 1933; a de Minelli, de 1949. A versão mais recente do romance de Gustave Flaubert, de 1991, deve-se a outro francês, Claude Chabrol, um dos nomes fundadores da nouvelle vague, se ignorarmos Vale Abrahão, versão livre de Manoel de Oliveira, de 1993. A de Chabrol e a de Renoir saem agora em DVD, pela Versátil (R$ 44,90 cada uma).

Lady Chatterley teve mais ou menos a mesma trajetória cinematográfica que sua colega Bovary. Ganhou as telas um pouco mais tarde, em 1955, sob direção de Marc Allégret. O detalhe é que a versão contemporânea, de 2006, é obra de mãos femininas: a francesa Pascale Ferran dirige essa adaptação baseada na segunda versão do romance-escândalo de D. H. Lawrence – ele fez três versões do mesmo romance. Com sua interpretação da história de Constance Chatterley, Pascale ganhou os principais prêmios do seu país, o César, e, de quebra, a capa da prestigiosa Cahiers du Cinéma. O filme sai em breve no formato DVD pela Imovision (preço ainda não definido).

Portanto essas duas mulheres, Emma Bovary e Constance Chatterley, tornaram-se sinônimos de encrenca desde que saíram da imaginação dos seus autores. A história de Bovary foi sendo publicada em capítulos até ser lançada em livro em 1857. O escândalo levou Gustave Flaubert (1821-1880) às barras do tribunal, acusado de ofensa à moral e à religião. Um dos juízes lhe perguntou quem era, afinal, essa tal de Madame Bovary, e Flaubert deveria agradecer a pergunta pois lhe deu a deixa para uma das respostas mais famosas da história das idéias – “Madame Bovary c?est moi”, disse. Assumindo que era, ele próprio, o responsável pela persona de uma das mais famosas adúlteras da literatura, Flaubert defendia a autonomia e universalidade da criação artística. Madame Bovary era ele, era o leitor, éramos todos nós, e o magistrado inclusive.

O percurso de Constance Chatterley não foi menos acidentado. Editado em Florença em 1928, O Amante de Lady Chatterley só veio a ser publicado na Grã-Bretanha, seu país natal, em 1960. A primeira adaptação para o cinema, de Marc Allégret, foi proibida nos Estados Unidos – e olhe que corria o ano da graça de 1955.

É possível entender essas tribulações levando-se em conta o puritanismo de uma época que ainda não recebera o banho de civilização dos anos 60. A linguagem de Lawrence soava sexualmente crua, para dizer o mínimo. E seu enredo não era, e não é, de molde a agradar a leitores da classe dominante e conservadora. Fala de uma mulher da classe superior, cujo marido volta inválido da guerra. Insatisfeita, ela acaba por se tornar amante de um empregado de sua propriedade. Difícil saber o que incomodou mais – se descrições sem subterfúgios dos atos sexuais ou a paixão sensual interclasses. Talvez a combinação desses dois elementos indigestos.

De romance tão denso quanto cru, Pascale Ferran tirou uma leitura sensível. Uma leitura feminina, para não dizer feminista. Lady Chatterley é um filme que mergulha no universo campestre, mimetiza seus tempos mais largos, incorpora os ruídos, os ritmos desse ambiente para o qual o casal Constance e Clifford se muda depois do ferimento do marido na guerra. É lá que tem lugar a aproximação assimétrica entre a dama (Marina Hands) e o guarda-caça, Parkin (Jean-Louis Coulloc?h).

O curioso é a maneira como Pascale evita o estereótipo da mulher classuda que busca o bruto para satisfazer algum obscuro desejo, alguma “nostalgie de la boue”, como se dizia. Parkin é rústico mas, ao mesmo tempo, revela-se um ser sensível. Exemplo: depois de um ato sexual particularmente intenso, Constance agradece ao amante pelo prazer recebido. Parkin ignora o orgulho do macho e sente tristeza. Supõe-se talvez usado, como objeto. E aqui, em filigrana, infiltra-se a questão classista em meio à realização erótica. As lutas pelo poder no sexo e no amor não se dão num vácuo social – e isto Lawrence e, por extensão, Pascale Ferran, não deixam o leitor ou o espectador esquecer. O que não significa “sociologizar” o desejo, mesmo porque o filme é pura intensidade e poesia. Mas é uma obra que pensa o desejo feminino como princípio ativo e autônomo. Constance Chatterley busca o prazer porque dele precisa e a ele tem direito.

De outra ordem é o adultério, ou adultérios, de Madame Bovary. Sua história se dá em outro contexto. Aqui também o ambiente é rural, mas ele não evoca a sensualidade despertada pelo contato com a natureza, como em Lady Chatterley, mas sim o tédio e a mediocridade. Emma (Isabelle Huppert) é filha de um pequeno sitiante que se casa com o médico Charles Bovary (Jean-François Balmer). Charles é monótono e um pouco tapado; mas não deixa de ser comovente no amor que sente por Emma. Ela é apenas uma garota ambiciosa, que ergue os olhos e vê seus horizontes fora da província, mas não consegue, do vilarejo, chegar nem mesmo a Rouen, quanto mais a Paris, sinônimo de civilização, do grand monde ao qual ela aspira, sem qualquer possibilidade.

A Bovary de Chabrol, interpretada por Isabelle Huppert, é fria, cerebral, às vezes até reverente para com o texto literário. A ponto de o diretor citar, com voz em off, trechos inteiros da prosa magnífica de Flaubert. Já a Bovary que a antecede, a de Renoir, é vivida por uma Valentine Tessier mais teatral, circunspecta, consciente do seu destino trágico. Valentine é hierática lá onde Isabelle busca um distanciamento reflexivo. Já Constance Chatterley, na pele de Marina Hands, é toda frescor, entrega e exultação. Variações de tempo e espaço, que fazem diferentes essas mulheres eternas.

(Cultura, 8/8/08)

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