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Lynch, passagem para o imprevisível

Luiz Zanin Oricchio

14 de dezembro de 2007 | 13h49

O filme de Lynch é um desses casos que provocam racha entre os críticos. Tanto assim que hoje, no Caderno 2, fizemos, eu e meu colega Luiz Carlos Merten, um Gostei-não Gostei. Quer dizer, não um Fla-Flu de posições inconciliáveis, ou torneio de críticos para ver quem esgrima melhor. Apenas duas visões discordantes sobre a mesma obra. A minha está aí abaixo. A dele, se você quiser conferir, pode ser lida aqui. Você decide, leitor, e forma a sua própria opinião.

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Vamos dizer de entrada – Império dos Sonhos é obscuro. Quer dizer, quem se dispuser a vê-lo deve estar preparado para enfrentar dificuldades. Em primeiro lugar, porque a linguagem de David Lynch, salvo casos especiais, como Twin Peaks e História Real, não é das mais fáceis. Segundo, se alguém usa o verbo “compreender” no sentido de trazer algo desconhecido para um universo mais familiar, estará em maus lençóis.

Para fruir o universo que Lynch propõe é preciso certa disposição prévia de se deixar levar por sons e imagens, sem tentar torná-las familiares logo de saída. Assim, se você se arriscar a essa viagem (e ela vale a pena) prepare-se para ter o sentimento de estranheza como companheiro de estrada. E não se deixe levar pela ilusão de que essa é uma estrada para o aleatório. Há sinais espalhados e é a esses sinais que o espectador deve se apegar.

A atriz-fetiche de Lynch, Laura Dern é, no filme, o que é na vida – uma atriz, em busca de um filme que descobre ser um remake inacabado, pois os protagonistas haviam sido assassinados. Império dos Sonhos pode ser visto, de certo modo, como a fragmentação mental dessa atriz, cuja mente se torna a cada vez mais complexa e perturbada quanto mais entra em contato com seu diretor, vivido por Jeremy Irons. Talvez isso torne tudo mais claro. Talvez não. O próprio diretor não faz nenhuma questão de dissipar dúvidas. No ano passado, Lynch apresentou Império dos Sonhos no Festival de Veneza, que o homenageou com o Leão de Ouro pela carreira. A sessão de imprensa foi das mais engraçadas pois alguns críticos saíram perplexos, sem saber em que gaveta mental deveriam arquivar o que haviam visto. Talvez tudo se esclarecesse na entrevista.

Mas não. Um jornalista ousou assumir o papel do homem comum e perguntou sobre o que era o filme. Lynch disse que achava isso claríssimo. E passou à pergunta seguinte. O jornalista insistiu e o diretor foi mais preciso: disse que a graça do cinema era essa, fazer com que o espectador entre em contato com um mundo desconhecido, onde ele não sabe o que pode acontecer. Quem compra um ingresso na bilheteria, compra, de fato, uma passagem para o imprevisível.

Mas qual o sentido de tudo isso? Nesse ponto, a meu ver, Lynch foi bastante esclarecedor: “Não se intimide”, aconselhou. “Use a intuição; deixe-se levar e lembre-se de que o cinema vai além das palavras. Esse é o problema das entrevistas. Queremos reduzir o filme a uma explicação e isso o empobrece. O público deve entrar numa sala de cinema com a mesma disposição de quem vai ouvir música num auditório. Busque a experiência, não o sentido.”

A “explicação” de Lynch, ou, na verdade, a sua recusa de explicação, é uma tentativa de colocar o cinema no passo das artes contemporâneas. Você não exige que alguém compreenda (a não ser de forma metafórica) uma peça de Webern ou Schoenberg. As obras são, e isso é tudo. No caso da música, as obras soam. No do cinema, se expõem, nesse complexo de sons e imagens que juntamos sob a denominação técnica de “audiovisual”. Em muitos sentidos, Império dos Sonhos é isso, um espetáculo, um filme-instalação para os sentidos, um estímulo para a mente. É preciso estar inteiro para poder apreciá-lo.

E estar inteiro quer dizer que não se pode permanecer conformado com o cinema como arte do século 20, mas cuja forma narrativa ainda é tributária do século 19. As histórias lineares, com começo, meio e fim, personagens desenhados e estáveis, enredos previsíveis, etc. começam a ser contestadas já nos anos 20 do século passado, pela música, pela literatura, pela pintura. A incerteza passou a fazer parte do arsenal da física teórica. O próprio cinema dessa década realiza seus experimentos de vanguarda, depois arquivados. Lynch retoma essa linha evolutiva, abandonada. Faz cinema de ponta. Não é o único cinema que merece ser chamado de contemporâneo. Mas é o cinema que trabalha na fronteira da linguagem. Nesse sentido é incontornável, goste-se ou não.

(Caderno 2, 14/11/04)

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