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Luz de uma estrela extinta *

Luiz Zanin Oricchio

19 de novembro de 2013 | 08h56

Em entrevista a Juca Kfouri e Estevão Bertoni, na Folha, o ensaísta José Miguel Wisnik admite ter pensado que o futebol era “luz de uma estrela extinta”.

A bonita expressão, de origem na astronomia, significa que, como as estrelas estão a milhões de anos-luz de distância da Terra, podemos estar vendo apenas sua luz que chega até nós, mas a própria estrela pode já ter morrido há muito tempo. Numa noite estrelada, admiramos o espetáculo de fantasmas do passado.

Wisnik diz que tinha essa incômoda sensação ao escrever seu livro seminal Veneno Remédio – o Futebol e o Brasil (Cia das Letras), possivelmente o mais inventivo ensaio já publicado sobre o assunto neste País. Diz o autor que, enquanto escrevia, sentia impressão de que o futebol de que falava estava esgotado, fato que, ele admite, não se confirmou.

Mais admirável do que ver um intelectual admitir um erro é a ideia que circunda esse suposto e notável equívoco. Wisnik, ao que parece, reavalia a vitalidade do futebol tendo em vista a ressurreição da seleção brasileira sob Felipão, em especial a vitória da Copa das Confederações. O “escrete”, como se dizia, teria assimilado as lições da modernidade (marcação por pressão, posse de bola, contra-ataque vertiginoso ao estilo alemão), ao mesmo tempo que recuperava o “timbre inventivo” do futebol brasileiro.

A expressão usada por Wisnik me impressionou, não tanto pelo que ela traz de novidade, mas por expressar, à perfeição, a ideia que me obceca e que eu não tivera capacidade de colocar em termos tão simples – e, admitamos, tão poéticos. Como adoro o futebol-arte e detesto o futebol negócio (um dia quero escrever um livro com esse título, ou alguma coisa do gênero), muitas vezes me vinha a impressão de estar falando de alguma coisa que já não mais existia. Admirava o brilho de uma estrela distante que, possivelmente, já havia morrido. Identifiquei-me, portanto, com essa sensação de às vezes estar falando sobre fantasmas, evocando forças do passado, fluídos misteriosos de um tempo que não existe mais.

Assim como Wisnik, também fico maravilhado, uma vez ou outra, ao ver ressurgir o futebol de invenção (outro título bom para livro) quando menos se espera. E aqui mesmo, no Brasil, que, para mim, virou terra arrasada, entreposto de exportação de talentos imberbes no contexto do novo capitalismo da bola. Aqui mesmo, na cruel caatinga da bola, nessa área de baixíssimo índice pluviométrico que se tornou o futebol brasileiro, vez por outra somos surpreendidos com alguma flor nascida em solo esturricado.

De vez em quando surge um Robinho, um Bernard, um Neymar, que nos fazem acreditar que a estrela do futebol-arte brasileiro ainda está viva, embora emita luz irregular. Pisca de tempos em tempos, apaga, volta a brilhar.

E, muito de vez em quando mesmo, acontece um milagre como esta seleção brasileira que não dava liga de jeito nenhum e, depois da chegada de um técnico tido como retranqueiro e inimigo do futebol-arte, passa a jogar de maneira a lembrar seleções do nosso passado glorioso. Se vai jogar assim durante a Copa do Mundo, ou vai optar pelo pragmatismo, ou se vai sair vencedora, é coisa que nem Deus (que deve ter outras ocupações mais prementes) talvez saiba. Mas que tem dado gosto de ver jogar, como havia muito tempo não acontecia, lá isso ninguém há de negar.

São fatos raros no atual futebol patrício. Basta ver o melancólico final deste campeonato insosso que, em outras condições, poderia ser um dos melhores do mundo. Quem brilhou nessa galáxia apagada? O Botafogo teve seus lampejos, em seguida encolheu-se. Até o Coritiba, hoje ameaçado de rebaixamento, mostrou seus momentos, com Alex em estado de graça. Corinthians, Santos, Flamengo e outros grandes fizeram questão de não dar um único momento de prazer sofisticado aos seus torcedores.

Só o Cruzeiro mostrou constância e qualidade, com um time sem craques extraordinários, mas que, pelo entrosamento e disposição ofensiva, dá gosto de ver. Foi o único astro com luz própria a brilhar no buraco negro que se tornou o Campeonato Brasileiro de 2013.

* Coluna publicada no Esportes do Estadão 

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