As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Lulu Nua e Crua

Luiz Zanin Oricchio

14 Outubro 2015 | 18h12

Karin Viard compõe uma mulher frágil e atrapalhada em Lulu Nua e Crua, da diretora Sólveig Anspach. No início, vestida de maneira um tanto desleixada para padrões corporativos, ela vai pedir emprego de secretária em outra cidade. Para se arrumar um pouco, entra no banheiro masculino, sem se dar conta. E, claro, Lulu é uma perdedora (nessa curiosa classificação americana que divide a humanidade entre vencedores e losers). Mal ajambrada, mal casada, mal consigo mesma.

É quase obrigatório, neste tipo de história, que a personagem, no fundo do poço, tenha um momento de consciência de si. E descubra que pode, de alguma forma, alterar o curso de uma vida medíocre. Não sem motivo, foram lembrados alguns filmes do “gênero”, como Bagdá Café ou Pão e Tulipas. Obras simpáticas, porque acenam com essa possibilidade de mudanças, não políticas ou radicais, mas apenas do curso de uma vida singular.

Há também, nesse tipo de história, a constatação de que ninguém faz nada sozinho. De modo que uma determinação de mudança pessoal terá de encontrar forma no encontro com outras pessoas. No caso de Lulu, com um tipo estranho porém de boa alma (Bouli Lanners) e atitude sedutora. Entram em cena também uma idosa (Claude Gensac), que precisa reparar uma falta do passado e tem morrer sozinha. E também uma jovem garçonete (Nina Meurisse), que suporta o massacre moral da patroa porque julga que não encontrará emprego melhor.

Esses personagens funcionam ora como estímulos ora como espelhos para a própria Lulu, que, apesar da rebelião inicial, não sabe bem o que fazer do seu futuro. Afinal, deixou para trás, pelo menos temporariamente, um casamento frustrante porém sólido, e uma filha adolescente e cheia de problemas, o que chega a ser redundante.

Num tipo de filmagem direta e franca, sem quaisquer subterfúgios ou invenções formais, a diretora Sólveig Anspach mantém o leme virado para este rumo – o da possibilidade de reinventar-se, mesmo quando a juventude já é uma lembrança distante. Inútil dizer que esta é uma das aspirações máximas da nossa época. Sentir que podemos fazer outra coisa de nossas vidas.

Antes, determinismos tidos como absolutos (casamento, maternidade, emprego) impediam qualquer tipo de movimentação, ainda mais quando se tratava de personagem feminino. Agora, tudo parece ao alcance, mesmo com sacrifícios. Essa rebelião da iniciativa individual, mesmo nos tímidos, talvez seja uma das marcas da nossa época. No limite um tanto ilusória, mas a verdade é que a autonomia aumentou, embora não seja absoluta. Karin Viard dá um toque especial a este filme. Nem particularmente brilhante ou bonita, ela representa exatamentemente essa reivindicação de independência do ser humano comum. Todos têm o direito a alguma forma de felicidade, por que não?

 

Mais conteúdo sobre:

cinema francêsKarin Viard