Loki – Arnaldo Baptista por inteiro
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Loki – Arnaldo Baptista por inteiro

Luiz Zanin Oricchio

19 de junho de 2009 | 13h35

loki

Loki vale-se de pelo menos dois trunfos para ser tão bom como é. Um deles vem do personagem fascinante que é Arnaldo Baptista, o criador dos Mutantes. O outro é a maneira bastante franca como o diretor Paulo Henrique Fontenelle aborda a trajetória desse artista. Um diretor mais tímido, mais recatado (no mau sentido do termo), talvez estragasse o que tinha em mãos. Para sorte de todos, inclusive do biografado, Fontenelle vai fundo. E conta tudo. Ou, pelo menos, conta muita coisa da vida nada vulgar de Arnaldo.

Ele foi uma espécie de músico precoce e criou Os Mutantes ainda menor de idade. De mentor intelectual da banda composta por seu irmão Sérgio e Rita Lee, evoluiu a profeta de uma trip composta de muita loucura, experimentação musical, e, sim, muita experiência com drogas. Arnaldo viveu a fundo a era do LSD e outros aditivos e o filme nada esconde. Como ninguém sai impune desse tipo de aventura, Arnaldo foi internado em hospitais psiquiátricos, e num deles caiu, ou se jogou, da janela de um quarto andar.

Tudo lá é dito, palavra por palavra, e nem mesmo amigos, convidados para os depoimentos, livram a cara do artista. Esse tom de sinceridade dá o tônus ao filme. Sem lamúrias, como deve ser quando se entra nessa de ir ao limite. Arnaldo pagou e paga o preço. Mas o faz de maneira suave. Vive, com sua terceira mulher, em Minas, onde pinta para se expressar. De passagem: é pena que o filme não se detenha mais na pintura de Arnaldo. De relance, dá para ver que se trata de um processo de reconstrução interna permitido pela arte visual. A pintura parece um meio privilegiado para restituir unidade a almas dilaceradas, como sabia a dra. Nise da Silveira em seus procedimentos com os pacientes do Hospital de Engenho de Dentro.

Loki refaz a trajetória de Arnaldo Batista por suas palavras, pelas de amigos e também – felizmente – por inserções musicais dos Mutantes e, de sua fase posterior, separado da banda. Fica transparente que Arnaldo não foi fundo apenas na questão das drogas ou do desregramento de vida. Sua viagem foi, sobretudo, musical, como prova o álbum Loki?, que dá título ao filme e é considerado sua obra mais radical. Era um momento de transição, em que a questão entre a música brasileira “pura” e a de influência internacional já parecia superada. Tendo participado dos festivais da canção e do tropicalismo, os Mutantes fizeram parte daquela geração que desatou esse falso nó. E, tendo desatado, ou cortado de vez, esse nó paralisante, puderam se abrir a tudo que poderia alimentar a música.

Desse modo, o que salta à vista na trajetória de Arnaldo é um ecletismo criativo que pode chegar ao extremo e brinca no abismo. Loki?,seu disco, é prova disso. Loki, o filme, seu testemunho.

(Caderno 2, 19/6/2009)

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