As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Llosa e o prazer do texto

Luiz Zanin Oricchio

17 Novembro 2006 | 19h18

Confesso que deixei o mais recente livro do Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má (Editora Alfaguara), esperando na fila da cabeceira. Já fui tiete do Varguitas, em especial depois de ler há muitos anos a obra-prima dele, Conversa na Catedral. Mas os romances mais recentes não me falaram à libido, embora sempre muito bem escritos. Escolhi o Travessuras para enfrentar uma viagem aérea que em tese seria curta, mas hoje em dia um deslocamento entre São Paulo e Vitória pode se transformar em maratona de dia inteiro. Então, o viajante prudente deve estar munido de muita paciência e um bom livro nas mãos. O pior não aconteceu, os vôos estavam no horário e eu quase lamentei que a viagem não tenha sido mais demorada. Simplesmente me atraquei ao livro de Llosa e não consegui mais desgrudar dele.

Sim, há o talento narrativo que alguém chegado aos 70 anos desenvolveu ao máximo que podia. Mas há muito mais nesse romance, uma imersão que se sente sincera e emocionada em lembranças que vão do seu país natal, o Peru, passando pelo exílio voluntário em várias capitais européias, como a Paris revolucionária dos anos 60, a swinging London dos 70, a Madri louca do pós-franquismo dos 80. Tudo isso costurado pelo amor de Ricardo por Lily, ou que nome tenha essa misteriosa criaturinha sem muitos escrúpulos mas muito charme. Não vou dizer que Travessuras da Menina Má esteja à altura de Conversa na Catedral porque não quero escrever besteira. Mas é mais do que suficiente para lembrar o prazer enorme que é a leitura de um bom livro.Não se prive dele.