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Lírios d’Água

Luiz Zanin Oricchio

14 de junho de 2008 | 20h57

Em torno do nado sincronizado, o desejo desperta entre mocinhas. É mais ou menos do que trata este Lírios d’Água, produção francesa dirigida por Céline Sciamma. De passagem: não deixa de ser ótimo que dois filmes da França estréiem na mesma semana em mercado tão saturado de blockbusters. Pelo menos, tem-se como alternativa uma sensibilidade diferente, uma maneira ligeiramente diversa de ver o mundo.

Nessa história sobre o nascer da sexualidade vê-se um olhar delicado, mas também ingênuo sobre essa fase conflituosa que é a adolescência. Marie (Pauline Acquart) é a garota de 15 anos louca para fazer parte da equipe de nado sincronizado. Ela é amiga da gorducha Anne (Louise Blachère), mas, para entrar no time, tenta se aproximar da beldade da turma, a egóica Floriane (Adèle Haenel).

As três são muito diferentes. Anne é rechonchuda e complexada; Marie é magricela e tímida; Floriane, em aparência, é desenvolta e experiente. No fundo, as três têm mais em comum do que pensam. São todas inseguras, não parecem ter qualquer consciência do corpo que se desenvolveu rápido demais, e aspiram à sexualidade. Às vezes porque de fato a desejam. Outras, porque parece ser o destino de toda garota de 15 anos.

O fato de Céline filmá-las quase o tempo todo no ambiente das piscinas agrega sensualidade à história. Aqueles corpos jovens estão em contato com a água, desnudam-se no vestiário, olham-se entre si. Formamos o corpo próprio pelo contato com o outro e sob o seu olhar, dizem os psicanalistas. No entanto, essa constatação parece mais intuitiva e menos refletida em Céline. Não deixa de ser estréia promissora dessa cineasta. Mostra que ainda tem muito caminho a percorrer.

(Caderno 2, 13/6/08)

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