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Lições de John Boorman e Jean Jacques Annaud

Luiz Zanin Oricchio

14 de novembro de 2007 | 17h36

MANAUS

Pelo menos no sábado, a grande atração não foi o encontro das águas, mas o de dois cineastas – o francês Jean-Jacques Annaud e o britânico John Boorman, ambos convidados de honra do Amazonas Film Festival, em sua quarta edição. Os dois se reuniram no belíssimo e vetusto edifício do Palácio da Justiça, agora transformado em Centro Cultural, para conversar sobre cinema. Têm muito que dizer. Afinal, Annaud é autor de filmes como Preto-e-Branco em Cores, O Amante, O Nome da Rosa. Boorman, de À Queima-Roupa, Excalibur, Amargo Pesadelo, Esperança e Glória.

Boorman foi logo criticando um dos aspectos do cinema comercial contemporâneo, aquele mais problemático, a seu ver – a ditadura dos “gurus de roteiro” de Hollywood. “São sempre roteiros em três tempos, previsíveis, uma verdadeira lavagem cerebral”, diz. Annaud concorda: “Escrevem de acordo com uma fórmula, e essa acaba levando a filmes idênticos”. Ambos, porém, admitem ter conseguido realizar projetos pessoais, sem interferências desse tipo.

E isso, apesar de terem trabalhado com grandes orçamentos e elencos cheios de estrelas. Annaud dirigiu Sean Connery em O Nome da Rosa e Brad Pitt em Sete Anos no Tibet. Boorman trabalhou com o mesmo Connery em Zardoz e Pierce Brosnan em O Alfaiate no Panamá. Mas é da convivência com Marcello Mastroianni em Príncipe sem Palácio que Boorman gosta mais de falar: “Marcello me mostrou que poderia cortar fora alguns diálogos porque ele resolvia tudo apenas com a expressão facial. Bem, isso foi bom também para ele, porque como seu inglês era péssimo”.

Ambos são diretores internacionais e não ficaram restritos aos seus países de origem. Trabalham com elencos de várias nacionalidades e filmam em países distintos dos seus. Para Annaud, o cinema é uma linguagem universal, que não pode ficar presa a nacionalismos. “Vivemos num mundo globalizado, e o cinema antecipou-se a essa realidade.” Boorman acha que o tema nem merece ser discutido. Para quem já dirigiu uma então desconhecida Dira Paes em plena floresta amazônica há 23 anos, essas questões parecem superadas.

Depois da entrevista, o repórter do Estado acompanhou Boorman a uma visita a uma exposição de Arthur Bispo do Rosário, que está acontecendo em outra dependência do Palácio de Justiça. Boorman ouviu a explicação de que Bispo do Rosário era um paciente psiquiátrico, e que havia produzido aquelas obras sem qualquer conhecimento da tradição artística. “É absolutamente espantoso, nunca vi nada parecido”, diz o diretor. E reafirma que as surpresas na vida têm vindo de países como o Brasil. “Já o meu está completamente esgotado; por isso fazemos tantos filmes históricos: o passado nos parece muito mais interessante que o presente.”

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