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Liberalismo e altruísmo, direita e esquerda

Luiz Zanin Oricchio

09 de junho de 2008 | 19h02

Outro dia houve neste blog uma discussão interessante sobre o liberalismo, as liberdades individuais e os deveres coletivos, que entraram em desuso. Por acaso dei uma olhada no ótimo blog de Jacques Attali, no portal da revista francesa L’Express, e reencontrei esse mesmo debate. Tomei a liberdade de traduzir o texto de Attali, que segue abaixo. Quem quiser ver o original em francês, e dar uma espiada geral no blog, entre por aqui.

O “liberaltruísmo”, por Jacques Attali

“Durante muito tempo o liberalismo político, quer dizer, o combate pelo fortalecimento da liberdade individual e pelos direitos do homem (que constituem a sua expressão mais perfeita), foi percebido como um valor de esquerda. A direita, ela, defendia as vantagens adquiridas e os privilégios.

Depois, veio o marxismo que, com o conceito de classe social, colocou a ênfase sobre o combate coletivo, mas sempre, segundo Marx, com o objetivo de reforçar a liberdade individual. Depois veio o comunismo, que fez do coletivo não mais um meio, como era em Marx, mas um fim em si, jogando a liberdade política no cemitério dos “conceitos burgueses”. A direita dela se apoderou, confundindo alegremente o liberalismo político, que visa a autonomia de cada indivíduo, com seu derivado econômico, que visa a autonomia de cada empresa. Eles são, no entanto, bem distintos: um diz respeito à democracia, o outro sobre o mercado.

Hoje, Bertrand Delanoë tem razão de querer reivindicar o ideal liberal para a esquerda, mesmo que seja muito difícil recuperar essa palavra em razão da sua deriva econômica.

Amanhã, mais ainda que ontem, muitos dos combates serão ainda conduzidos pelos partidos que se reivindicam de esquerda pela defesa das liberdades, em particular a liberdade de trabalho, e pela conquista de liberdades novas, em especial em matéria de costumes.

Mas a esquerda deverá também, mais do que nunca, explicar que a liberdade individual pode conduzir ao desastre coletivo: se a liberdade individual é o único valor reconhecido, se ela não é limitada pelas exigências da liberdade dos outros, ninguém terá qualquer razão para respeitar o menor contrato, nem mesmo ser leal a qualquer coletividade.

A esquerda, se quiser permanecer na vanguarda da mudança social, deverá então se fazer líder dos valores novos, visando a levar em conta para cada um deles as exigências da liberdade do outro, em particular a dos mais pobres e a das gerações futuras. Isso se chama altruísmo, no qual cada um busca sua felicidade na felicidade dos outros.

Uma das grandes questões políticas de amanhã será tornar compatível o liberalismo e o altruísmo, e disso tirar um projeto político. A direita o buscará na generalização da caridade e na promoção de fundações. A esquerda o construirá pelo estabelecimento de novas instituições públicas. À condição de que pare o mais rápido possível com criancices.”

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