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Lezama Lima, Morango & Chocolate

Luiz Zanin Oricchio

19 de dezembro de 2010 | 12h56

No maior sucesso internacional do cinema cubano – Morango e Chocolate (1993), de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabio –, o escritor Lezama Lima (1910-1976) é uma espécie de figura tutelar. Não que algum ator apareça para interpretar Lezama na tela. Mas, quem conhece sua obra, e também alguma coisa de sua vida, sabe que o autor de Paradiso está entranhado em cada uma das entrelinhas do filme, além de ser citado de maneira explícita em mais de uma ocasião. Faz parte do seu DNA mais íntimo, de tal maneira que nem mesmo seria preciso nomeá-lo para que estivesse em toda parte.

Para quem não se lembra do filme, vai aí uma pequena sinopse. Diego (Jorge Perugorría) é um homossexual sofisticado que se apaixona por um jovem, David (Vladimir Cruz), inculto e fervoroso revolucionário. Os dois se conhecem numa famosa sorveteria de Havana, a Copelia. Tomam sorvetes; Diego, de morango, David, de chocolate. Desde o início, Diego está obviamente interessado em David e consegue levá-lo à sua casa. Uma terceira personagem, a ex-prostituta, Nancy, vivida por Mirta Ibarra, entra em cena e serve de intermediária entre os dois. Ela é problemática, já tentou o suicídio mais de uma vez e é amiga íntima de Diego. Terá também papel importante na vida de David, mas ele ainda não sabe disso. O filme é baseado no conto mais famoso de Senel Paz – O Lobo, o Bosque e o Homem Novo.

Não é difícil ver em Diego uma persona bastante próxima de Lezama Lima. Homossexual, sofisticado ao extremo, de gostos refinados em todas as áreas, incluindo a culinária, Lezama, como tantos outros intelectuais, sofreram para se adaptar a uma revolução que tinha muitas carências e outras prioridades. Diego, como Lezama Lima, é um admirador fervoroso da cultura cubana pré-revolucionária e, num momento muito preciso no filme, essa admiração se expressa em um banquete que prepara em homenagem a David. A passagem é uma citação literal de Paradiso, o “banquete lezâmico” que, por sua vez, evoca uma prática da vida real do escritor que costumava brindar seus amigos com pratos refinado da culinária da ilha. As associações entre comida, sedução e sexo também são óbvias. Mas o que salta à vista, nesta cena fundamental, é o desejo do intelectual de iniciar o discípulo na arte do “mestre”, ou seja, Lezama Lima, ele próprio, que aparece num retrato na parede da sala de visitas de Diego.

Também parece claro que a própria trajetória de Lezama Lima tenha fornecido a Alea um modelo que lhe serve para tratar o dilema do intelectual cubano. Ele próprio, Alea, como Lezama, e como o personagem fictício Diego, não são “contrarrevolucionários” no sentido mais simplório do termo. Não desejam simplesmente emigrar para Miami e ir às compras. Amam a ilha e sua cultura, têm identificação profunda com o país, mas, ao mesmo tempo, não podem deixar de criticar o regime naquilo que ele tem de mais odioso: a carência material, a ausência de liberdade de expressão, a burocratização estéril da vida social, o poder que se espalha pelas frestas e desce do comandante en jefe aos Comitês de Defesa da Revolução, que controlam a gente comum 24 horas por dia. Não por acaso, o pretexto para que David frequente a casa de Diego será mantê-lo sob vigilância para ver se representa ameaça ao regime.

Não é a primeira vez que Alea discute a perplexidade do intelectual diante da revolução. Já o fizera em sua obra-prima, Memórias do Subdesenvolvimento (1968). Sérgio (Sergio Corrieri) vive, no calor da hora, as contradições da revolução de Che, Camilo e Fidel. Sua mulher escapa para os Estados Unidos. Ele fica. Nem por isso acredita muito nas transformações anunciadas. Sente-se um estranho naquele mundo, porém não tem ânimo para partir. É um homem dividido e termina na mais completa alienação. Em Morango e Chocolate, Alea avança no tempo. Situa o enredo nos anos 1980 e introduz a questão da intolerância sexual através do personagem Diego. A sua busca é por uma Cuba unificada e pacificada, que inclua as conquistas da revolução em um ambiente de tolerância social e liberdade. Talvez seja uma utopia. Em todo caso, a grandeza do filme está na formulação desse ideal, pelo menos no âmbito restrito da relação entre dois seres humanos. Não por acaso a figura de Lezama Lima aparece como uma espécie de contraluz a colocar em relevo essa trabalhosa realização utópica.

Em Paradiso, quem prepara e serve o banquete cubano é Doña Augusta, representante da antiga cultura da ilha e figura decalcada da própria avó do autor. Essa cena literária é transfigurada por Alea & Tabio no almoço que Diego serve ao amigo David para apresentá-lo à figura de Lezama, emblema da sofisticação cultural da ilha. Esse almoço tem mesmo uma posição estratégica na narrativa de Lezama Lima, tanto assim que é uma das três partes de El Viajero Inmóvil (O Viajante Imóvel, 2008), livre adaptação que o diretor cubano Tomás Piard fez da obra-prima do escritor.

Alguns livros como Ulisses, Em Busca do Tempo Perdido e Paradiso tem sido considerados “inaptáveis” para cinema. Não apenas por sua extensão, mas pelo trabalho intensivo da forma literária, seriam intransponíveis para o meio audiovisual. Por sorte, alguns cineastas como Joseph Strick (Ulisses, 1966), Volker Schlöndorff (Um Amor de Swann, 1984) Raul Ruiz (O Tempo Redescoberto, 1999) e agora Tomás Piard não foram avisados dessa impossibilidade e tentaram. Qualquer que seja o julgamento sobre resultado, são exercícios úteis, e corajosos. Quando menos, despertam no espectador o desejo de ir ao livro e conferir no original a versão que viu na tela.

(Sabático, 18/12/10)

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