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Leviatã

Luiz Zanin Oricchio

20 Janeiro 2015 | 10h43

Vamos dizer primeiro que Leviatã, de Andrei Zvyagintsev, evoca, em seu título, o clássico de Thomas Hobbes, além de trazer referências à Bíblia (a passagem de Jó) e a história libertária de Michael Kohlhass, de Kleist, também recentemente filmada.

Kolya (Alexei Serebraikov) é o personagem principal, ou, se quiserem, a vítima primordial. Ele é apenas um mecânico que mora com a mulher e um filho numa cidade à beira-mar. Vivem numa casa que pertence há muito tempo à sua família, imóvel que padece de um mal de origem, por dizer assim. Situa-se em local privilegiado e então se torna objeto de cobiça imobiliária. Em especial por parte do prefeito da cidade (Roman Madyanov, ótimo), que não terá receio em usar de todos os meios para se apossar da casa.

As referências cruzadas do filme não são gratuitas. De Hobbes, ficou para o senso comum a frase sobre o homem ser o lobo do homem. Em Leviatã, o filósofo inglês sustenta que, para escapar a essa guerra de todos contra todos, o homem precisa ceder parte da sua liberdade em troca da segurança. Sem um Estado (no caso de Hobbes, a monarquia absoluta) a mediar os conflitos, os homens estariam condenados a se entredevorar na luta por seus interesses. Em outras palavras, se não houver um terceiro (a Justiça, o Estado) a intermediar meu conflito de interesse com o vizinho, seríamos obrigados a pegar em armas e ver quem pode mais, numa carnificina sem trégua e sem fim.

Kolya está no centro desse conflito assimétrico, em que o Estado não funciona como promotor da justiça, mas é, ele próprio, parte interessada e usa seu poder em proveito próprio. Kolya é também como o Jó da Bíblia, a quem tiram a casa, a mulher e a saúde, como numa prova de paciência e fé em Deus. É igualmente um pouco como o Michael Kohlhass, de Kleist, cujo inconformismo com a injustiça o leva ao banditismo (um tipo especial, que Eric Hobsbawm chamará de banditismo social).

É tudo isso sem ser nenhum dos três. Não chega a personificar o indivíduo amparado no Estado absoluto, pois este está corrompido por seus interesses particulares. Nem é o Jó da Bíblia, pois se alguma instância ocupa o lugar de Deus em sua história, é o próprio Estado. Mas este é um Deus cínico e nada confiável; expolia ao invés de proteger. E nem chega a ser Kohlhass pois sua revolta não se estrutura como resistência organizada e violenta.

O fato é que Leviatã, o filme, encena a luta desigual entre o indivíduo e o Estado corrupto, aqui encarnado por um pequeno prefeito de província, porém dotado daquela força imensa que vem da completa ausência de escrúpulos.

O filme lança seus tentáculos em várias direções, por exemplo ao mostrar a conivência entre a Igreja Ortodoxa e o poder. Ou ao evidenciar a relação dos russos com sua história, na sequência de antologia em que se pratica tiro ao alvo sobre retratos de antigos líderes, Lênin, Krushev, Brejnev. Quando alguém pergunta a um atirador por que não usar fotos de líderes contemporâneos, ele responde que não existe ainda a perspectiva histórica sobre estes. Serão julgados, a seu tempo.

A imagem é certeira. Tanto assim que o filme, embora venha obtendo muita repercussão no exterior, tornou-se, ele próprio, alvo de críticas na Rússia. Dirigentes têm se perguntado se uma obra, em parte financiada pelo dinheiro público, pode apresentar retrato tão cáustico sobre o seu país. A resposta aparentemente é sim, embora Zvyagintsev procure em suas entrevistas “despolitizar” o conteúdo da obra. Pouco importa. O filme fala por si. E como fala.

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