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Letra e paradinha

Luiz Zanin Oricchio

09 Fevereiro 2010 | 14h48

Amigos, como vocês sabem, não somos nós que escolhemos os assuntos – eles é que nos escolhem. Assim, não tenho alternativa senão retomar alguns aspectos do São Paulo x Santos de domingo. Volto, na verdade, aos dois gols do Santos. Gols são detalhes, afirmou Carlos Alberto Parreira. Ora, Deus está nos detalhes, dizia um pensador alemão que nunca chutou uma bola. E o nosso Roberto Carlos, não o lateral, mas o cantor e compositor, meditava, desde Cachoeiro de Itapemirim, sobre a importância dos detalhes tão pequenos de nós dois.

Enfim, os dois gols, esses detalhes que decidiram o clássico, foram duas pinturas, duas joias. O primeiro, vocês sabem, foi o pênalti, com paradinha e tudo, cobrado por Neymar. Um pênalti pode ser uma pequena obra de arte? Do jeito como é batido, pode. Lembram como Djalminha cobrava pênaltis? Lembram de Zidane, batendo de “cavadinha” numa final de Copa do Mundo? Lembram dele, Pelé, inventando, ou consagrando, a paradinha, sua marca registrada na cobrança das penalidades máximas?

Volto ao assunto porque, depois da cobrança de Neymar, cobranças de outra ordem começaram a ser feitas. Há quem diga que o pênalti já é uma covardia contra o goleiro. E que um pênalti batido com paradinha amplifica essa covardia a ponto de transformá-la em delito a ser denunciado às ONGs de Direitos Humanos. Há também quem faça distinção entre uma paradinha e uma paradona – do tipo que cometeu Neymar. Lembro que a paradinha de Pelé era, de modo geral, mais sutil. O Rei apenas diminuía de modo abrupto a intensidade da corrida. Não parava, a bem dizer. Quebrava o ritmo do passo e, desse modo, obtinha o que todo cobrador de pênaltis quer – que o goleiro escolha o canto antes de a bola ser chutada.

Neymar deu uma paradona. Com tanta convicção e classe que fez o goleiro Rogério Ceni cair de modo pouco condizente com sua categoria e compostura. Acontece. O próprio Rogério já usou o recurso quando na posição de cobrador. Ouço dizer que cobranças desse tipo são injustiças que se cometem contra o goleiro – a mais ingrata das posições, no jargão dos boleiros. Ora, peço licença para discordar. A posição de goleiro é mesmo ingrata (onde ele joga não nasce grama, diziam os antigos) e poucas humilhações do mundo se comparam às de um frango clássico, a bola tomada no meio das pernas. Mas, na hora do pênalti, a equação se inverte e o goleiro tem todos os privilégios. Se tomar o gol, ninguém irá contestá-lo – ainda que a bola seja chutada no meio da meta e ele já estiver caído para um dos lados. Se defender, mesmo uma cobrança defeituosa, será chamado de herói.

No pênalti, todo o peso recai sobre o cobrador. Ele é quem tem a responsabilidade de converter um gol já feito. Sim, porque pênalti bem batido é bola na rede. Não há como defender. A paradinha é recurso do cobrador. Recurso de risco. Qual é o pavor de quem dá uma paradinha (ou paradona, tanto faz)? Que o goleiro não se mexa, fique ele próprio estático no meio do gol. Ou seja, a paradinha do atacante se combate com a parada do goleiro. E, assim, o cobrador vê-se obrigado a definir o chute, tendo já perdido o impulso da corrida. Nesse caso, terá de contar com precisão e sangue-frio de neurocirurgião para, sem grande força, colocar a bola fora do alcance do goleiro, no canto baixo ou no ângulo. Conclusão: quem dá paradinha tem de confiar plenamente em seu taco. É uma virtude psicológica, tanto mais admirável em um garoto de 18 anos diante de um dos mais completos e experientes goleiros do País.

E quanto ao gol de Robinho? Ora, um gol de letra dispensa palavras.

(Coluna Boleiros, 9/2/10)