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Les Olympiades ou a nova ordem amorosa

Luiz Zanin Oricchio

14 de maio de 2022 | 13h31

Les Olympiades é um bairro moderno em Paris, situado no 13º arrondissement. Aqui ficou como 13º Distrito. Dirigido por Jacques Audiard (de O Profeta), pretende ser um retrato do amor contemporâneo.

A localização não é gratuita. Les Olympiades é um conjunto moderno de vários edifícios, centros comerciais etc, encravado numa Paris que ainda conserva o formato das reformas de Haussmann, com grandes avenidas e conjuntos de prédios baixos.

Numa cidade já multicultural e multirracial (com exceção dos quartiers da alta burguesia), no 13º Distrito é onde essa característica se aprofunda. É onde se situa, por exemplo, a chamada “Chinatown parisiense. É lá que é encenada a ciranda amorosa que lembra um poema de Carlos Drummond: Emillie (Lucie Zhang) encontra Camille (Makita Samba), que sente atração por Nora (Noémie Merlant), que cruza o caminho de Amber Sweet (Jehnny Beth). A história é inspirada em três graphic novels do autor norte-americano Adrian Tomine: Amber Sweet, Killing and Dying e Hawaiian Getaway.

Filmado em preto-e-branco, remete para outras referências, essas bem francesas – em particular a filmes da nouvelle vague como Minha Noite com Ela (1969), de Éric Rohmer, e La Maman et la Putain (1973), de Jean Eustache. Lembra, pela temática dos encontros e desencontros amorosos, essa faceta da nouvelle vague que espelha a liberdade sexual dos anos 1960 e, paradoxalmente, a angústia que a queda das repressões pode causar. Uma espécie de preço a pagar, um pedágio pelo privilégio de manter relações mais livres.

Essa ciranda amorosa é enriquecida por preocupações da nossa época – questões raciais, já que Émilie é de origem asiática e os pais de Camille são africanos. Entram também questões de gênero e LGBT +. Em seu realismo bastante despojado (fora a estilização em preto-e-branco da fotografia), Audiard parece mesmo interessado em mergulhar em todas as questões de relacionamento típicas da nossa época. E ser correto em todas, o que lhe valeu reparos de alguns críticos franceses. No jornal Les Inrockuptibles”, por exemplo, lê-se que “Ultra-voluntarista em seu desejo de se colocar em completa sincronia, o filme pena em ultrapassar a simples acumulação de signos da época”. Já a revista Positif o coloca no sétimo céu dizendo que Les Olympiades nos “rejubila, encanta e perturba com seu retrato de um bairro e de uma geração”.

As duas observações fazem sentido. O filme, às vezes, parece “fabricado” demais no afã de parecer contemporâneo, “moderno”, programático, plugado nas questões da nossa época. Bem, pode-se dizer que, se não fizesse isso, seria também criticado, como se Audiard, que beira os 70 anos de idade, tivesse feito um filme de gente moça para falar da sua própria juventude. Mas sua preocupação com a atualidade vem desde o roteiro, co-assinado por ele e Céline Sciamma, diretora de um filme militante como Retrato de uma Jovem em Chamas.

Mas é necessário lembrar o que o filme tem de encantador, nesse registro de uma Paris futurista que, no entanto, se dilui sob o preto-e-branco e parece quase atemporal. Pode-se dizer que aqueles dilemas amorosos pertencem à juventude de qualquer época, mas talvez se acentuem na nossa, com a entrada em cena dos aplicativos de encontros, o Tinder da vida, ferramentas impensáveis nos anos 1960 e 1970.

A transformação de costumes, por um lado aponta para uma maior liberdade de relacionamentos. Por outra, abre uma fresta para a solidão e a angústia de cada um. Quando tudo podemos, no fundo nada podemos. É uma reflexão que fica desse filme bonito, com elenco jovem vibrante, bastante fluido, bem filmado – e um tanto melancólico.

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