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Lenin e Greve

Luiz Zanin Oricchio

02 de fevereiro de 2009 | 09h40

Há algum tempo escrevi um post sobre Braços Cruzados Máquinas Paradas, de Roberto Gervitz. Nele, mencionava um texto de Jean-Claude Bernardet que, de passagem, comentava o filme Greve, de João Batista de Andrade. Ontem, João Batista entrou no blog e postou o seguinte comentário:

“Caro Zanin,
Com todo respeito por você, a colocação de meu filme “Greve!” como “aplicação do leninismo” é uma simplificação terrível. E nem acho que Jean Claude se expressou dessa forma: nunca vi isso e se ele o fez, errou também.

O que JCB diz, -e é o que eu sempre pensei, dessde o “Liberdade de Imprensa” é que eu e o outro, o que está frente à câmera, pensamos diferente, sempre. E minha proposta é explicitar essa diferença, fazendo com que o filme seja resultado desse confronto. Nada de leninismo tal como provavelmente você pensou ao escreveer. Eu não forjo um poder pensando em substituir o outro! O outro é que é importante mas, como em muitas vezes em minha vida, discordei do que meus personagens pensavam ou de como agiam: e explicitei isso, criando uma polêmica para não ser conivente com o que eu achava errado. Quem deverá agir será o espectador e, como fiz muitas vezes na TV, o espectador privilegiado será o próprio personagem, estabelecendo um diálogo enriquecedor para todos!!!! – Essa sim, é a diferença: não me situando como “militante” da causa do “outro”, posso e devo dialogar com ele, sem poder algum de impor a ele o que eu penso!!!!

Acho por demais importante esclarecer isso, pois tem a ver com boa parte de minha filmografia e de minha vida.

João Batista de Andrade ”

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Bem, esclareço que, para mim, o termo “leninismo” não é pejorativo. Apenas situa politicamente a posição de um narrador num filme dado e num tempo determinado. Em todo caso, à guisa de esclarecimento, seguem aí as palavras de Jean-Claude Bernardet, ipsis litteris, tiradas de Cineastas e Imagens do Povo (págs. 259-260):

“A função do narrador dentro da estrutura de Greve, tal como a analisamos em Cineastas e Imagens do Povo, encontra embasamento no conhecido modelo exposto por Lenin em Que Fazer?, do relacionamentoentre um certo tipo de intelectual (o intelectual revolucionário) e o operariado. Como se sabe, Lenin luta, nesse livro, contra o espontaneísmo, sindicalismo e economismo da classe operária, e contra líderes e intelectuais que se limitam a seguir o movimento dessa classe. De fato, para Lenin, a consciência revolucionária, a compreensão global da sociedade e as perspectivas políticas não nascem espontaneamente na classe operária. Numa frase célebre, ele afirma que a consciência revolucionária só pode chegar aos operários de fora. Ele aprova Kautski quando escreve que ‘a consciência socialista de hoje não pode surgir senão à base de um profundo conhecimento científico. Ora, o portador da ciência não é o proletariado, mas os intelectuais burgueses”. Mas a consciência teórica do intelectual revolucionário se complementa ao encontrar o proletariado, sem o qual ele fica girando no vazio; por sua vez, o proletariado não consegue escapar ao espontaneísmo, aos movimento reivindicatórios e à ideologia burguesa se não for como que fecundado pela consciência teórica do intelectual. Esse me parece ser um dos modelos sobre os quais se apóia, de modo geral, o documentário sociológico que se desenvolve no Brasil a partir da década de 1960 e, de modo mais particular, um filme como Greve, em que o papel da narração se torna sensível. No caso desse filme, a narração não tem uma função descritiva, ou apenas descritiva, mas sim a de fornecer informações de que o discurso operário carece, e um diálogo se estabelece, pelo menos num sentido, entre refutar o que o narrador julga incorreto no discurso operário e contribuir, com o saber de que ele dispõe, para o enriquecimento e a transformação da consciência operária, que é do tipo sindical e reivindicatória. Acho que é nesse sentido que se deve entender a referência feita por João Batista de Andrade à universidade, quando diz que os que tiveram a oportunidade de adquirir, na universidade, um saber que não está ao alcance do conjunto da sociedade, têm o dever de colocar esse saber a serviço do povo. Como Batista não teve a oportunidade de desenvolver os seus conceitos de universidade e de saber, esa afirmação permanece um tanto abstrata.”

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