As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Legado de Paulo Emilio em discussão

Luiz Zanin Oricchio

21 de novembro de 2007 | 09h26

Brasília, além dos filmes, tem também sua ‘agenda reflexiva’ e, nela, os apontamentos mais importantes ligam-se ao nome de Paulo Emilio, nos 30 anos de sua morte. Quinta, sexta e sábado, o jornalista Marcelo Lyra ministra workshop que contextualiza as atividades de Paulo Emilio, da fundação do Clube de Cinema na Faculdade de Filosofia da USP à criação do curso de Cinema na então recém-fundada Universidade de Brasília. Como professor da jovem UnB, Paulo Emilio presidiu o comitê que em 1965 criou a Semana do Cinema Brasileiro, primeiro nome do Festival. No sábado haverá mesa-redonda com o tema Por que Paulo Emílio?, com participação do biógrafo do crítico, o pesquisador José Inácio de Melo Souza. Com seu livro Paulo Emilio no Paraíso (Editora Record, 630 págs.), José Inácio ganhou o Prêmio Jabuti de 2003 na categoria Biografias.

Será interessante checar nessas conversas o que pode ser feito com o legado de Paulo Emilio, que ainda exerce grande influência em parte da crítica nacional, ao passo que é desprezado por outra, sob acusação de nacionalismo e desvios esquerdistas. Entre a adesão incondicional e o repúdio ignorante, porém, há todo um universo a ser explorado nos textos legados pelo crítico.

No prefácio do seu livro, José Inácio escreve que as questões colocadas em um dos textos mais famosos de Paulo Emilio, Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, ainda não foram resolvidas. Continua pendente, por exemplo, a problemática relação do brasileiro com o Outro, com o estrangeiro, expressa em parágrafo que se tornou espécie de mantra intelectual de parte da crítica: ‘Não somos europeus nem americanos do norte, mas destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro.’

Morto em 1977, Paulo Emilio não viveu para assistir à globalização, que nada mais é do que a aceleração mundial de intercâmbios e influências, fenômeno que já se observava havia muito. De qualquer forma, hoje, mais do que antes, qualquer fechamento em si tornou-se irrelevante e o tema da identidade não pode (se é que alguma vez pôde) ser pensado em termos de essência, mas como processo e, portanto, dinâmico. As perguntas sobre o que é ser brasileiro, hoje, e, para falar em termos cinematográficos, o que é fazer um cinema nacional não podem se resumir à nostalgia de um retorno a fontes em aparência originais e ‘puras’ – porque elas simplesmente não existem. É de se esperar que todas essas questões, que não são simples de debater, estejam presentes na discussão. Será uma forma desse evento, cujo nome completo é Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, propor temas que, eventualmente, irão além da tela e da película. Será talvez – via Paulo Emilio – recolocar na pauta o cinema como instrumento de investigação da vida, com tudo que ela contém, inclusive a História e a política, e não limitá-lo a deleite de cinéfilos alienados. Brasília é o foro ideal para isso.

Precisaremos ver, também, se os concorrentes se prestam a esse serviço. Cleópatra é uma releitura brasileira da personagem egípcia e seu relacionamento com Roma, quer dizer, com o poder. Anabasys trata da trajetória errática de Glauber Rocha e seu último filme, o polêmico A Idade da Terra. Falsa Loura é mais uma imersão de Reichenbach no mundo proletário e feminino. Em Chega de Saudade, Laís Bodanzky conta, em uma única noite, várias histórias vividas por freqüentadores de um salão de baile. Meu Mundo em Perigo é a visão de José Eduardo Belmonte sobre as relações familiares, na história da mulher que pede a guarda do filho ao ex-marido. Amigos de Risco, de Daniel Bandeira, fala de jovens e seus problemas, revelados quando um deles passa mal em uma noitada. Veremos, sobretudo, como essas cartas de intenção, que são as sinopses, foram transformadas pelos autores em linguagem cinematográfica. Além desses seis longas, o Cine Brasília, palco privilegiado do festival, exibe 12 curtas em 35 mm, sendo 6 de São Paulo, 3 de Brasília, 2 de Pernambuco e apenas 1 do Rio de Janeiro. Dezoito filmes em 16 mm serão apresentados em outro local, a Sala Martins Pena do Teatro Nacional.

Na rotina do evento, os filmes apresentados à noite no Cine Brasília são discutidos na manhã seguinte no Hotel Nacional, sede do festival. Longos e em geral produtivos debates, de às vezes até três horas de duração, entre realizadores, atores, técnicos e jornalistas especializados e o público.

O Festival termina no dia 27, quando então volta ao Teatro Nacional para a cerimônia de premiação. Antes da entrega dos Candangos, em noite que às vezes é de muita euforia e, outras, de choro e ranger de dentes, acontecerá sessão cinematográfica importante: a exibição do raro e transgressivo Dezesperato (1968) em homenagem ao seu diretor Sérgio Bernardes Filho (1944- 2007). Será uma autêntica noite marginal – no bom sentido do termo, claro.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.