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Lebanon

Luiz Zanin Oricchio

05 de novembro de 2009 | 13h22

Depois de ter sessões canceladas ao longo do evento, Lebanon, de Samuel Maoz, foi programado para o encerramento da Mostra, hoje à noite. Digno fecho, com o vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza.

O filme foi considerado muito bom pela crítica internacional presente em Veneza, mas não deixou de levantar alguma polêmica. Maoz transpõe sua experiência como soldado na Guerra do Yom Kippur para a ação. De forma consciente, limita o campo de visão ao interior de um tanque de guerra que avança com quatro soldados sobre território inimigo. A maior parte do que acontece lá fora chega ao espectador através dos sons. Ou por meio da pequena câmera com que os ocupantes do carro forte veem o exterior. Assim, é um trabalho de autolimitação, que aumenta e muito as possibilidades dramáticas da obra. O medo não está tanto no que se vê mas no que não se vê, ensinam os mestres do terror, a começar por Hitchcock. E isso se aplica para a situação de guerra. Maoz, um estreante em longas-metragens, sacou bem esse dado.

Bem-feito que seja (e é), Lebanon não escapou da observação crítica de duas jornalistas estrangeiras – e justo na entrevista coletiva de premiação, mais propensa portanto ao beija-mão do que à troca de ideias. Uma libanesa acusou o filme de “ode pró-Israel”, que só via um lado da questão. Outra, egípcia, colocou em dúvida a maneira como Maoz havia apresentado a realidade da guerra no Oriente Médio. São reparos complementares. E que podem ser acolhidos a cada vez que se representa uma situação radicalmente controversa como essa.

O que se pode dizer de Lebanon – além do fato de ser cinematograficamente convincente – é que procura introduzir em cena outros personagens do conflito. Um prisioneiro palestino entra no tanque em determinado momento. Há um diálogo muito tenso entre ele e um membro da milícia cristã libanesa, aliada dos israelenses e tida como responsável pelo massacre dos campos de Sabra e Chatila. Perto do fim, uma cena pungente envolvendo um israelense e o prisioneiro palestino talvez desfaça qualquer má vontade para com o filme.

De resto, Lebanon apresenta um ponto de vista – o do soldado que Maoz efetivamente foi, e o faz com vigor. Mas não lhe falta também compaixão.

(Caderno 2, 5/11/09)

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