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Las Insoladas

Luiz Zanin Oricchio

14 Agosto 2015 | 09h25

Interrompo um instante a cobertura do Festival de Gramado e abro espaço para a crítica de Las Insoladas, que estreou em várias cidades. 

 

Entre banhos de sol e conversinhas fúteis, Las Insoladas é um filme baseado em diálogos que consegue traçar um panorama bastante interessante do seu país, em determinado momento de sua história. A proeza é do diretor argentino Gustavo Taretto.
Ele trabalha com uma situação única durante quase toda a duração do longa-metragem. Seis garotas, colegas de uma escola de dança, sobem à cobertura do prédio para buscar um bronze durante um escaldante verão em Buenos Aires. Estamos nos anos 1990, às vésperas do Ano Novo. Elas querem pegar uma cor para participar de um concurso de salsa à noite. Com a grana, pretendem colocar em prática um sonho comum – passar 15 dias nas paradisíacas praias de Cuba. É sua promessa de Ano Novo. Juntar dinheiro suficiente para que, no ano seguinte, o gastem em duas duas semanas inesquecíveis em Varadero, entre praias, daiquiris, baladas e aventuras amorosas.
Las Insoladas é exemplo do que tem de melhor o cinema argentino, ou, pelo menos, parte dele. Baseia-se em roteiro depurado ao máximo, para que o rendimento das falas corresponda às intenções do autor. Não há vírgula jogada fora em meio às aparentes banalidades proferidas pelas meninas. Esse texto ganha vida numa direção enxuta e sintética, que tira interpretações precisas e bem-humoradas das meninas.
Em cacos de conversas, surgem imagens e temas argentinos – o presidente Menem, o guerrilheiro Che Guevara, argentino de nascimento (nascido em Rosário), etc. Porém, a banalidade  predomina. E a sua crítica interna, feita não por uma instância exterior e sapiente, mas pelas próprias protagonistas. Desse modo, vê-se impor uma mentalidade (turbinada na própria era Menem, neoliberal e predatória) em que o importante é se dar bem, banhar-se ao sol, conhecer lugares exóticos. Uma época da futilidade extrema, do consumo como objetivo e finalidade da vida humana. A nossa época, enfim, lá como aqui e em toda parte.
Inútil dizer que esta discurseira não está presente no filme. Nele, falam as garotas e, ao falarem de tudo e abertamente de todos, desconstroem o discurso de que são, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos.

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