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Laranja Mecânica, um pensamento sobre a origem do Mal

Luiz Zanin Oricchio

27 de abril de 2013 | 08h39

Não é todo dia que um clássico retorna em impecável cópia restaurada. A qualidade da cópia em DCP de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, pôde ser atestada pelos cinéfilos da Mostra de Cinema de São Paulo há dois anos em histórica sessão do CineSesc. Rever esse filme, com suas cores, intensidade sonora e visual originais, é uma experiência e tanto. Mesmo porque, ao contrário de tantos outros da mesma época (anos 1970), este não envelheceu.

E resistiu bem ao tempo justamente porque é um clássico, no sentido que Italo Calvino dá a este termo: uma obra que nunca deixa de dizer a sua mensagem. Retornamos a ela e sempre vemos algo novo. Tem sempre algo a dizer tanto sobre o tempo em que foi feita como sobre o tempo atual. Plana sobre a cronologia sob a forma de uma paradoxal atemporalidade – é de todos os tempos e de nenhum deles, exclusivamente.

Kubrick se inspira no livro de Anthony Burgess para seu filme de 1971. Trata-se de uma estranha distopia social, que fala de um grupo de delinquentes liderado por certo Alex (Malcolm McDowell). No desenho estético apurado de Kubrick, Alex é um tanto andrógino. Pelo efeito de maquiagem, metade do seu rosto é masculina, a outra metade feminina. Brutal, tem gosto apurado – é ouvinte de Beethoven, em especial da Ode à Alegria, o 4.º movimento da 9.ª Sinfonia, um dos momentos mais altos da música ocidental.

Com seu perfeccionismo, Kubrick alterna com maestria os planos do grotesco e do sublime. E nos prepara para a grande questão de fundo, que liga o filme aos nossos dias: a brutalidade dos delinquentes pode ser combatida com igual brutalidade pelo Estado? Como a sociedade pode se defender da violência sem que ela própria institucionalize a violência? São perguntas sem respostas fáceis, que fazemos sempre que nos sentimos ameaçados – como acontece neste preciso momento em que se discute a questão da maioridade penal.

Na distopia imaginada por Burgess e recriada por Kubrick, são técnicas behavioristas bastante primitivas as que são empregadas para “curar” o delinquente Alex, fazendo com que seu gosto musical volte-se contra ele próprio. Qual o preço a pagar nesse procedimento? Esta é a pergunta que não quer calar e ressoa, mesmo após o término do filme, na cabeça do espectador.

Tudo isso é intrigante, perturbador, e Kubrick, pelo brilho de sua direção, não deixa de nos jogar de um lado para outro. Ora fazendo com que nos identifiquemos com Alex, ora jogando com a nossa repulsa em relação a ele, Kubrick nos nega qualquer porto seguro. Melhor assim: nos obriga a pensar. E a sentir. Porque Laranja Mecânica é uma experiência tanto intelectual quanto sensorial.

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