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La Graine et le Mulet ganha o César, o “Oscar” francês

Luiz Zanin Oricchio

23 Fevereiro 2008 | 00h21

Melhor filme e direção (Abdellatif Kechiche) para O Segredo do Grão (La Graine et le Mulet) no César, o mais importante prêmio do cinema francês. Como se esperava, Marion Cotillard venceu como melhor atriz por sua estupenda caracterização como Piaf Hino ao Amor, filme que, no original, se chama La Môme (A Garota). O filme ganhou outros quatro prêmios, mas não os principais, como se esperava. A decisão parece certa. Como cinema, O Segredo do Grão é muito superior a Piaf. O prêmio para Mathieu Amalric por O Escafandro e a Borboleta confirma que ele é o ator da hora na França – protagoniza, também, o excelente A Questão Humana, que passou aqui na Mostra de Cinema, mas continua inédito no circuito comercial.

A vitória de Kechiche não surpreende, embora se falasse em favoritismo para Piaf. O Segredo do Grão concorreu em Veneza e, por pouco, não ganhou o prêmio principal, sendo no fim suplantado por Ang Lee e seu Lust Caution. Mas, na Itália, o filme francês causou excelente impressão. Trata-se de um empolgante painel étnico, cuja história, ambientada numa pequena cidade portuária próxima de Marselha, mostra um pai de família que perde o emprego nos estaleiros ao ficar velho e tenta se estabelecer por conta própria, montando um restaurante. Com seqüências muitas vezes filmadas em tempo real, Kechiche leva o espectador a uma imersão quase documental na comunidade magrebina do sul da França. Um belíssimo filme, de interpretações espontâneas e pulso humanitário, emocionante sem jamais ser piegas ou ingênuo.
Hafsia Herzi, vencedora do César de revelação feminina, repetindo o prêmio que ganhou em Veneza, protagoniza uma dança do ventre de tirar o fôlego. Mas não é apenas isso. Ela, de certa forma, simboliza o frescor de um trabalho de direção muito inspirado de Kechiche. O filme foi comprado pela distribuidora Imovision, de Jean-Thomas Bernardini, e será lançado em breve no País.

O destaque ainda deve ser dado para o vencedor do César de melhor filme de estréia, Persépolis, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. O filme de animação, que estreou na sexta-feira no Brasil, trabalha como um preto-e-branco de muito bom gosto e linhas inspiradas. Trata, sem preconceitos ocidentais (o que é sempre difícil) de uma história de uma jovem iraniana que imigra para a França. Os problemas dos dois países não são escondidos e nem amplificados. De certa forma, esse trabalho responde à uma questão sempre presente para as pessoas que vivem entre duas culturas e se vêem sempre estimuladas a compara-las. É o caso da França, país de forte e antiga presença árabe e muçulmana.

De certa forma, se pensarmos bem, Persépolis não deixa de dialogar com O Segredo do Grão. O cinema, ou pelo menos o melhor dele, nunca deixa de ser uma meditação sobre o país onde é feito.

Abaixo, a lista completa de premiação

Melhor filme: O Segredo do Grão, de Abdellatif Kechiche

Melhor direção : Abdellatif Kechiche por O Segredo do Grão

– Melhor ator : Mathieu Amalric em O Escafandro e a Borboleta

– Melhor atriz: Marion Cotillard em Piaf – Hino ao Amor

– Melhor ator coadjuvante : Sami Bouajila em “Les témoins”

– Melhor atriz coadjuvante: Julie Depardieu em “Un secret”

– Melhor revelação masculina : Laurent Stocker em
“Ensemble, c’est tout”

– Melhor revelação feminina : Hafsia Herzi em O Segredo do Grão

– Melhor filme de estréia: “Persépolis” de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud

– Melhor roteiro original : Abdellatif Kechiche por “La Graine et le mulet”

– Melhor roteiro adaptado : Marjane Satrapi et Vincent Paronnaud por “Persépolis”

– Melhor filme estrangeiro: “A Vida dos Outros” de Florian Henckel von Donnersmarck (Alemanha)

– Melhor documentário : “L’avocat de la terreur” de Barbet Schroeder

– Melhor curta-metragem : “Le Mozart des pickpockets” de Philippe Pollet-Villard

– Melhor figurino : Marit Allen por “La Môme”

– Melhor direção de arte : Olivier Raoux por “La Môme”

– Melhor som : Laurent Zeilig, Pascal Villard e Jean-Paul Hurier por “La Môme”

– Melhor música escrita para um filme : Alex Beaupain pour “Les chansons d’amour”

– Melhor montagem : Juliette Welfing por “Le Scaphandre et le papillon”

– Melhor fotografia : Tetsuo Nagata por “La Môme”

Um “César d’honneur” foi atribuído ao cineasta italiano Roberto Benigni.

Um segundo César d’honneur foi entregue à atriz francesa Jeanne Moreau.

Durante a cerimônia, Alain Delon prestou homenagem à atriz Romy Schneider, morta em 1982, que teria completado 70 anos em 2008.