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La Ciudad y los Perros, o filme

Luiz Zanin Oricchio

15 de julho de 2012 | 00h56

 


O romance de formação de Mario Vargas Llosa, La Ciudad y los Perros, que completa 50 anos, ganhou uma bela adaptação para cinema, em 1985, dirigida pelo cineasta peruano Francisco Lombardi.

Francisco “Paco” Lombardi é o principal diretor de cinema do Peru, e já verteu para a tela grande outra obra de seu conterrâneo Vargas Llosa, o satírico Pantaleão e as Visitadoras (1999), que chegou a concorrer no Festival de Gramado, aqui no Brasil.

Em La Ciudad y los Perros (conservamos o nome original porque o filme não teve lançamento comercial no País), Lombardi consegue captar o clima opressivo descrito no romance.

Temos lá, em 144 minutos de ação tensa e realista, a descrição fiel do ambiente da Academia Militar de Lima, na qual os cadetes são tratados sob rígida disciplina pelos superiores, em especial por um tenente durão, Gamboa (Gustavo Bueno, artista frequente em filmes de Lombardi, como Boca do Lobo, sobre o Sendero Luminoso).

Mas o que fica também clara é a hierarquia que se estabelece entre os próprios alunos, com a dominância do mais forte (o “Jaguar”) sobre os mais fracos. Um deles é apelidado de “o escravo” pelos outros e vive espezinhado porque não consegue se defender e só sobrevive pela submissão total. Ele será o pivô de uma tragédia que envolve todos os outros e arrasta a Academia a uma crise. O próprio Llosa se retrata através de um alter ego, “o Poeta” (Pablo Serra), cadete com veleidades literárias, que escreve histórias eróticas a troco de cigarro e bebidas. Mas, além disso, o Poeta será também uma espécie de consciência crítica, antecipando o papel do intelectual que Llosa se reserva diante da sociedade peruana. Será ele não o causador da crise, mas o catalisador de uma situação difícil de ser controlada pela hierarquia. Por essa ação, verá seu poder, mas também as limitações próprias de todo intelectual. O livro e o filme são premonitórios, de certa forma.

Por meio de uma mise-en-scène vigorosa, Lombardi retrata essa rigidez de superfície que esconde uma dupla moral vigente na Academia. Por trás do ambiente de extrema legalidade, instaura-se um tráfico de produtos proibidos comandada pelos alunos e que só pode sobreviver pela conivência de alguns militares de patentes superiores. É uma rede hipocrisias que só pode ser desvendada por que algo fora do controle, como a morte de um aluno, acabou acontecendo sob as barbas dos superiores. Mesmo assim, quem ocupa os postos mais altos da hierarquia tentará acobertar o crime e os possíveis criminosos sob o pretexto de que uma investigação seria prejudicial para a Academia. O desfecho é brilhante. E desalentador para quem acredita na pureza das instituições. Militares ou não porque salta à vista que a crítica de Llosa é mais geral e se estende à sociedade opressiva em seu todo.  

De certa forma, a mesma crítica à rigidez e à dupla moral será feita, em outro registro, em Pantaleão e as Visitadoras, o outro romance de Llosa adaptado por Lombardi. Em La Ciudad y los Perros era a violência sob o verniz da ordem; em Pantaleão, é a questão da sexualidade. A história é hilária. Num posto avançado nas selvas peruanas, os soldados sofrem com a falta de sexo. Há notícias de estupros praticados contra mulheres das localidades remotas. Para resolver o problema é instituído um serviço de prostitutas para aplacar a libido da soldadesca. Pantaleão é o oficial destacado para organizar – com minúcia militar – esse serviço de importância estratégica.

Pelo riso, Llosa chega a resultado semelhante ao que consegue pelo drama em La Ciudad y los Perros.

 

 

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