La cama e o tabu do sexo na velhice
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La cama e o tabu do sexo na velhice

'La Cama' não tem nada demais. Mas uma imagem de intimidade de um casal idoso provocou bloqueio no Facebook

Luiz Zanin Oricchio

30 de abril de 2019 | 17h34

La Cama é um drama argentino de Mónica Lairana, que não teria muito porque chamar a atenção.

Mostra um velho casal (nem tão velho assim, na casa dos 60 anos) que se reúne talvez pela última vez para acabar com uma antiga relação. O espectador não fica sabendo dos motivos pelos quais o casamento desandou. Fica por conta de sua imaginação construir esse “fora de campo” da história.

Mabel (Sandra Sandrini) e Jorge (Alejo Mango) se encontram na antiga casa do casal para esvaziá-la e colocá-la à venda. A famosa partilha dos objetos que se segue à separação dos corpos físicos. Entre esses objetos, um em particular, a cama que, para os casais felizes, é mais que um local confortável para dormir.

Não é raro que, nas despedidas, antigos impulsos aflorem. É, em certa medida, o que acontece entre Mabel e Jorge, dois magníficos intérpretes, diga-se de passagem.

O filme nada tem de erótico, pelo menos não no sentido mais vulgar do termo. Tem sexo? Tem. Assim como tem sexo frustrado e feito com dificuldade, pois não se trata de dois jovens apaixonados que se amam da forma aeróbica que nos acostumamos a ver no cinema. Mas, de qualquer forma, se amam. E, como diz uma famosa música brasileira, “qualquer maneira de amar vale a pena”.

Mas não é o que pensa o neo moralismo contemporâneo. Um amigo escreveu uma crítica de La Cama, postou-a e foi bloqueado no Facebook por causa de uma imagem do casal no filme. Pior: o Face bloqueou uma página de críticos justamente por causa dessa imagem – que só pode ser tachada de pornográfica por quem tem mente muito suja.

Enfim, tenho uma teoria a respeito. De fato, existe um neomoralismo por aí, um pouco em toda parte, mas no Brasil de maneira particular. No entanto, há longos anos a erotização da sociedade, e a elevação da performance sexual a algo de obrigatório, criaram espaço mais para o exibicionismo que para a discrição em matéria de sexo. Passou a ser “in” divulgar a amigos e seguidores o número de conquistas e orgasmos. Isso entre homens e mulheres, de maneira democrática.

Mas, mesmo nesta época de nudes e evasão de privacidade, certos tabus são mantidos. Um dos mais poderosos diz respeito à sexualidade entre pessoas maduras. Aquilo que é aceito entre jovens, parece indecente quando os parceiros são mais idosos. Velhinhos e velhinhas devem jogar bocha ou fazer tricô para os netos, não transar em uma cama de madeira sólida. Isso não se aceita, ora vejam!

Tenho para mim que este foi o motivo (jamais confessado, é claro) para a censura a uma foto um tanto mais caliente do casal maduro. A sociedade não suporta o sexo entre velhos e entende que a função erótica limita-se à idade reprodutiva.

Ou estarei errado?

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