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Khamsa – para ver como é a periferia do Primeiro Mundo

Luiz Zanin Oricchio

03 de março de 2010 | 11h21

É com muita intensidade que Karim Dridi conta a história do garoto Marco (Marc Cortes), meio cigano meio árabe, perdido entre duas comunidades e não se sentindo parte de nenhuma. Marco não tem mãe, o pai (Simon Abrakian) vive de maneira desregrada e acaba indo embora. Ele se apega à avó velhinha, que termina morrendo. E seus horizontes vão se fechando à medida que se junta a um grupo de meninos de rua, no qual pontifica um anão adoentado, Tony (Félix Fourmann).

Tudo parece conduzir a um melodrama sobre crianças carentes e abandonadas, mas o tom buscado por Dridi nada tem de lacrimoso. Pelo contrário, a narrativa é seca, densa, tensa – muitas vezes com a câmera na mão, seguindo os meninos pelas vielas, pelo porto e pela feia periferia de Marselha, onde parte da história se passa.

O filme dialoga claramente com um clássico da infância abandonada, Os Esquecidos, de Luis Buñuel, ao qual sempre é útil voltar. Em especial num tempo em que a sujeição ao politicamente correto só faz esconder a dureza da realidade e jogar o que é incômodo para baixo do tapete. Buñuel e, muito mais tarde, entre nós, Plínio Marcos, mostraram que se pode fazer um filme ou uma peça de teatro de denúncia sem cair na armadilha da idealização da pobreza. Pelo contrário, as situações de sobrevivência, no fio da navalha, tendem a induzir pessoas a comportamentos duros, às vezes pouco solidários e mesmo cruéis. A luta pela vida não é travada por santos.

No entanto, a solidariedade e a bondade às vezes emergem de onde menos se espera. Surgem em pequenos gestos, de pouca monta, porém significativos. E, quanto maior o despojamento, maior a emoção que causam esses gestos mínimos, porque os tomamos como autênticos. Nesse sentido, Dridi não se permite qualquer sentimentalismo. A vida é árdua para esses ciganos, assim como para as comunidades árabes pobres da periferia francesa. Nessas condições, ninguém afaga a cabeça alheia gratuitamente. Mas é tocante ver como Marco se solidariza com Tony quando o anão parece abatido por uma violenta crise de asma. Ou quando o pai de Marco, bêbado e lúbrico, faz um pequeno gesto de carinho no filho por ocasião de despedida. Tudo é econômico e despojado. Mesmo a música, um pungente som de flamenco, entra com sobriedade, e nos momentos justos.

Num típico filme que evita qualquer chantagem ou glamour, a opção por atores não profissionais parece se impor. Há qualquer coisa nos personagens que relembra não apenas o radicalismo de Buñuel, mas também a naturalidade dos primeiros filmes neorrealistas. Como se Dridi buscasse se acercar do real, fazendo as pessoas representarem a si mesmas no drama social permanente que se encena no coração do Primeiro Mundo. Drama da pobreza e das crianças divididas entre culturas que não se entendem. Seduzidas pela sociedade de consumo, parecem encontrar na delinquência seu caminho natural, o que os governos percebem. Tentam intervir por meio de assistentes sociais e medidas paliativas. Tudo isso aparece no filme, mas nada parece convencer muito o diretor.

Sua preocupação maior é com as crianças, das quais Marco seria o representante. Não há qualquer chantagem, sentimentalismo ou tentativa de santificá-lo na maneira de retratá-lo. Ele é o que é. Mas dificilmente se esquece o olhar abandonado dessa criança feiosa.

(Caderno 2, 3/3/2010)

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