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Ken Loach dá pontapé inicial para a Mostra

Luiz Zanin Oricchio

22 de outubro de 2009 | 10h32

Começar a Mostra com um novo filme de Ken Loach é fazer fé numa estética de esquerda e humanista. Os detratores chamarão de saudosista e os adeptos de progressista. Não existe consenso sobre esse tipo de coisa, já que cada qual tem suas razões e preferências. Em todo caso, para quem se interessa, seria bom afirmar que Loach continua a crer em soluções coletivas, mesmo num mundo levado ao individualismo extremo.

Quem é o Eric a que se busca? Pode ser tanto o personagem, que tem esse nome, como seu xará ilustre, o jogador Eric Cantona, francês, porém ídolo do Manchester United. Eric Bishop (Steve Ebets) vive com filhos e enteados, mas sem mulher. O casamento com sua grande paixão de juventude, Lily, não deu certo. E Eric não vai lá muito bem da cabeça. Foi pego dirigindo na contramão. Para reencontrar seu eixo precisa de ajuda. Quem? Cantona, o próprio, jogador aposentado e ídolo do Eric anônimo, que mantém em seu quarto um enorme pôster do atleta.

Como Allan, personagem de Woody Allen em Sonhos de Um Sedutor se socorria de um imaginário Humphrey Bogart quando não sabia o que fazer com as mulheres, Eric se consulta com Cantona para enfrentar a crise. Cantona interpreta a si mesmo. Não vai mal. Tem carisma. Era uma mistura de George Best com Romário. Bom de bola, atacante inspirado, frasista de boa cepa e rebelde com causa. Avis rara no mundo conformista do futebol.

O engraçado é como Cantona se vale do vocabulário, e também dos valores do futebol para estimular Eric a encarar seus problemas. O personagem é um tipo inclinado à passividade, mais para a reclamação do que para ação. Ninguém melhor, então, do que um atacante de talento, mesmo que imaginário, para aconselhá-lo a sair do marasmo. Cantona ensina que quem não assume riscos não corre perigo de quebrar a cara. E nem de triunfar. Ensina ainda outras coisas. Veem-se suas imagens reais em ação, marcando gols de todos os jeitos, de pé esquerdo, pé direito e de cabeça, driblando vários adversários ou finalizando com um único toque. Mas há uma jogada que impressiona entre todas. Ele recebe a bola próxima da área e, sem pará-la, bate com o lado de fora do pé (de “três dedos”, dizemos no jargão). A bola toma um efeito inesperado e cai no pé de um companheiro de time que chuta e marca. “E se ele perdesse o gol?”, pergunta Eric. Cantona olha em seus olhos: “Se você não confia nos companheiros, está perdido.” Essa é a senha para Eric.

A saída é pelo grupo, não pelo indivíduo e, se o futebol é o mais belo jogo entre todos, isso se deve a inúmeras razões, mas uma delas é fundamental – trata-se de um esporte coletivo. Tinha de ser o favorito de Ken Loach.

(Caderno 2, 22/10/09)

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