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Kaká de olho no Brasil

Luiz Zanin Oricchio

03 Setembro 2013 | 23h47

 

Como estou na Itália a trabalho, pude observar in loco a repercussão da volta de Kaká ao Milan, depois da passagem pouco brilhante pelo Real Madrid. Sabe como foi? Discreta, muito discreta. Há explicações. Primeiro, Kaká não é novidade. Apenas um filho que volta, um filho pródigo, digamos assim. E, depois, porque tudo mesmo ficou obscurecido diante da transferência de Gareth Bale, do Tottenham ao Real Madrid, por 100 milhões de euros. É a maior transferência da história do futebol.

Parêntese. Passei alguns dias em Portugal, antes de voar para Veneza. Pelas ruas só se ouve uma palavra: crise. O país está em ruínas, não pode pagar o que deve, as pessoas enfrentam o desemprego, os jovens não sabem o que fazer da vida e eternizam-se na casa dos pais. Carreiras são cortadas. A Cinemateca Portuguesa, referência do país, está por fechar. Por acaso, encontramo-nos com um cineasta português em plena Avenida da Liberdade e ele era só lamentação. Falava de colegas que se dedicavam a outros ofícios. Diretores de cinema que se tornavam professores de esqui, escritores que viviam de bicos, engenheiros que davam aulas de ginástica para pagar as contas. Na rua, a vida corria aparentemente normal. Em dia de sol, havia turistas, casais, crianças gente chupando sorvete. Bastava você conversar com uma pessoa para que outra realidade começasse a aparecer. Na Itália, a mesma coisa. Se você perguntar pela situação, prepare-se para ouvir meia hora de queixas. Parece até que estamos no Brasil, país onde todos vivem insatisfeitos.

E, no entanto, no mundo à parte do futebol tudo continua a funcionar. A ponto de assistirmos a uma venda de direitos de um jogador a essa soma estratosférica, obscena. Enfim, isso sim é notícia para os jornais. De modo que Kaká e sua volta à casa tiveram de se contentar com cantinhos de página, pelo menos nos jornais que leio. Mesmo assim, é algo futebolisticamente importante, sem dúvida. O brasileiro volta para o clube que o tirou do São Paulo há tantos anos e o lançou no mercado milionário da Europa.

Kaká não faz mistério sobre o retorno ao Milan. Sentindo-se sem espaço no Real, tenta, no time italiano, transformar-se em alternativa para Scolari na seleção brasileira. Jogando ao lado de Robinho, Kaká deseja, de fato, mostrar futebol para estar no Brasil em 2014, vestindo o manto da seleção. Quer dizer, o jogador se move dentro da Europa, troca a camisa branca do Madrid pela rosso-nera do Milan, mas tem o olhar colocado mesmo é numa certa camisa amarela. Pode dar certo, por que não? Aos 31 anos, se voltar a jogar bola, Kaká pode dar um toque de maturidade ao time que, numa campanha de Copa, certamente terá de enfrentar momentos difíceis em campo. E, nesses momentos, experiência conta.

Em especial, conta a experiência italiana, que parece muito próxima das preferências de Luis Felipe Scolari. Não tenho ideia de se ele algum dia, em alguma entrevista, declarou sua admiração pelo calcio. Mas, no fundo, nem precisava fazê-lo. Está na cara. É claro que os estilos nacionais mudaram muito com o intercâmbio de técnicos e jogadores. Viraram quase uma geleia geral indefinida. Em meio a essa padronização, ainda algumas características permanecem. No caso dos italianos, o pragmatismo, o privilégio concedido às defesas, o posicionamento sólido em campo.

Volta e meia você lê o noticiário e encontra algum elogio a um time que jogou muito bem, fez gols mas também tomou, e isso vem seguido do comentário de que não é o “vero calcio italiano”. Elogiando as vitórias de Inter e Milan sobre Catania e Cagliari, um comentarista diz que a verdade está sendo reencontrada. Depois de dar muita atenção aos “fantasistas”(os craques inventores), voltava-se à regra número um do futebol: fechar o próprio gol, em primeiro lugar. É ou não é Felipão puro?