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Jovens Adultos

Luiz Zanin Oricchio

11 de abril de 2012 | 09h32

Este Jovens Adultos, nova parceria entre o diretor Joson Reitmen e a roteirista Diablo Cody (ambos já haviam feito Juno), é um alívio para quem não suporta o discurso certinho do cinema americano atual.

A deusa Charlize Theron é escalada para fazer uma problemática escritora infanto-juvenil Mavis Gary, em crise com a proximidade dos 40 anos, com o trabalha e com os afetos. O que ela faz para combater a crise? Pensa em novas alternativas de vida? Nada disso, decide sair de Minneapolis rumo à pequena Mercury, onde seu ex-namorado de juventude casou-se e acaba de ser pai. Para agravar, a série que Mavis, escreve, chamada High School, está para ser “descontinuada”, pois os livros encalham. A cada frustração, Mavis amarra um porre. Bebe como marinheiro recém chegado ao porto, e combate ressacas com hectolitros de Coca-Cola.

Nada combina muito com o tom politicamente correto (mesmos as neuroses precisam sê-lo hoje em dia) dominante. E Mavis partirá para a provinciana Mercury, com seu cãozinho a tiracolo e disposta a reconquistar o ex-amado, Buddy (Patrick Wilson), brandindo todas as armas de que dispõem. Quem conhece a moça sabe que essas armas não são poucas ou fracas. Claro, no retorno, Mavis que, parece, nunca foi muito certinha, reencontra seus pais, antigos colegas de colégio, um entre eles especial, Matt (Patton Oswalt), vítima, muito anos atrás, de uma agressão homofóbica que o deixou com sequelas. Agora se dedica a destilar bebidas exóticas que, generoso, compartilha com a insaciável Mavis. Uma estranha relação de amizade se estabelece entre os dois. Relação feita de atração e repulsa, ao mesmo tempo. Ao mesmo, por parte dela.  Enfim, é um reencontro com o tempo perdido.

O que se tem em vista também é o contraste entre a cidade grande (supostamente cosmopolita) e a vida acanhada da cidade pequena. Mas esses contrastes são explorados de maneira amena, nunca caricata. Até, se pode pensar enfim, que a distância entre as duas realidades não é assim tão grande. Em todo caso, nenhuma das vidas que aparecem em Mercury são tão certinhas assim; e nem tão bizarras. São vidas com suas esquisitices, digamos assim, “normais”. É uma América meio fora do eixo essa que Diablo Cody e seu diretor Jason Reitman nos apresenta.

Da mesma forma que não exagera nessas dicotomias, Reitman tampouco leva o filme exageradamente para a comédia ou para o drama.Oscila de um lado a outro, o que é uma boa medida, porque também é assim a vida, nem só risos, nem só lágrimas. Nem só alegrias e nem apenas frustrações. O épico ou o trágico passam longe das pessoas normais, que apenas desejam um pouco de prazer, reconhecimento e felicidade. Tão pouco, mas tão difícil de obter. É só atrás disso que está Mavis. Na cidade grande ou na pequena cidade da sua juventude e memória.

Reitman, diretor também de Obrigado por Fumar e Amor Sem Escalas, optou por uma trajetória que evita a banalidade. Busca personagens e situações difíceis, cheias de arestas e vários ângulos de observação. É também hábil criador de clima. Trabalha na linguagem clássica do cinema, mas não permite que este caia na caretice. O estilo visual, a ambientação, a música, tudo conflui para uma certa instabilidade, que é exatamente a dos seus personagens.

(Caderno 2)

 

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