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Jovem guarda no Festival de Brasília

Luiz Zanin Oricchio

23 Novembro 2007 | 14h39

BRASÍLIA

Uma primeira noite de competição iniciada por jovens realizadores. Foi assim o início da 40ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Tanto os curtas-metragens – Um Ridículo em Amsterdã e Espalhadas pelo Ar – quanto o longa Amigos de Risco são estréias na bitola de 35 milímetros. Foi a maneira encontrada pelo festival de apontar que se, por um lado, é guardião de certa tradição brasileira, também se mantém atento à renovação. Para o espectador (e para o crítico também) fica a impressão refrescante de ver novas propostas (e rostos) na tela do Cine Brasília.

Em sua estréia como diretor de longas, o pernambucano Daniel Bandeira mostra vigor. Amigos de Risco é uma espécie de La Notte Brava (o filme de Mauro Bolognini) passada nos lugares menos turísticos do Recife. Aliás, nada turísticos. Três amigos entram numa trip sem fim noite adentro. Dois deles, Nelsão e Benito, dão duro em seus empregos. Um é garçom, o outro trabalha numa loja de cine-foto. O terceiro, Joca, está ausente há anos, volta à cidade e deseja reencontrar os companheiros. Acontece que Joca é um encrencado, leva os amigos às boates, se droga, etc.

O filme tem um tom rápido e áspero, que se modula em certa lentidão no final. A oscilação no registro fotográfico prejudica o resultado, e não é tão redondo, ou fluido, como deveria ser. A fala rápida dos personagens dificulta às vezes a compreensão. E assim, num exercício de má-vontade, se poderiam enumerar falhas, omissões, etc. E se perderia o essencial. Pois claro que Amigos de Risco é cheio de defeitos, o que também é preço do noviciado. Mas, como contrapartida, exibe essa energia, essa vontade de ousar e acertar que às vezes não se encontra em trabalhos de gente veterana e acomodada. No aspecto temático, essa parábola um tanto rude sobre os limites da amizade, tem também a virtude de incorporar a complicada realidade social brasileira sem qualquer discurso sociológico prêt-à-porter. A câmera registra o que é o cotidiano da noite, nos bairros periféricos, sem nada esconder. E o filme também não procura um discurso que explique o que já se está vendo. O real é aquilo que simplesmente é e se deixa ver. Essa, a força do filme, em sua estética “suja” e impura.

Em entrevista, Daniel disse que os reparos aos problemas técnicos já eram esperados. “Captamos imagens com uma mini-DV e depois passamos para película”, disse. O procedimento impõe limitações tanto no registro fotográfico quanto na captação de som. “Não quero fazer a apologia da pobreza e, se tivesse um orçamento maior, talvez tivesse feito algo diferente, mas as propostas do filme estão todas aí”. O diretor disse também esperar certa abertura e tolerância do público para com essa suposta precariedade. Por felicidade, no debate, foi lembrado Paulo Emílio e o elogio que fez, em texto no Estado, sobre a fotografia de Aruanda, documentário de Linduarte Noronha, uma das fontes de inspiração do Cinema Novo. O que parece “tosco”, no fundo, é também recusa do padrão de qualidade médio.

Curtas

Um Ridículo em Amsterdã, de Diego Cozze, brinca com a metalinguagem. O próprio diretor faz as entrevistas do personagem, que “não sabe” que está sendo filmado e reage mal quando descobre isso, o que é pura encenação. Interessante. Em Espalhadas pelo Ar, Vera Egito faz um registro do universo feminino. Uma mulher de 30 anos, infeliz no casamento, faz amizade com adolescentes do seu prédio, que usam a escada de serviço para fumar escondidas dos pais. Um curioso caminho para a liberação neste filme delicado. Ao contrário dos filmes dos meninos, com seus movimentos de câmera bruscos e estética suja, Vera trabalha com um visual mais calmo e estável. Será que isso quer dizer alguma coisa?

Notas

Já está em Brasília uma das figurinhas carimbadas do festival, alguém que aqui marca presença há muitos anos e nunca falta. Não, não se trata de nenhuma atriz famosa, mas de dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber e brava guerreira do Tempo Glauber, o memorial da obra do seu filho. Este ano, dona Lúcia tem um motivo a mais para estar em Brasília – vai acompanhar a projeção do concorrente Anabasys, dirigido por sua neta Paloma Rocha e pelo cineasta Joel Pizzini. O documentário evoca a conturbada participação do último filme de Glauber, A Idade da Terra, no Festival de Veneza de 1980.

Júris

Os júris também já estão reunidos aqui em Brasília. A análise dos filmes em 35 milímetros (longas e curtas) fica a cargo dos atores Chico Diaz e Dira Paes, do cineasta Manfredo Caldas, do escritor Marçal Aquino e dos jornalistas Inácio Araújo, João Paulo Pinto da Cunha e Mauro Ventura. Já os trabalhos em 16 milímetros serão julgados pelos cineastas Helvécio Marins Jr., Paulo Severo e Pedro Lacerda, pela atriz e apresentadora Marina Person, e pela produtora Suzana Amado.