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Jornalismo: a luta entre o velho e o novo

Luiz Zanin Oricchio

22 de junho de 2009 | 19h15

O que o relacionamento entre uma blogueira jovem e um repórter experimentado pode dizer sobre a atual crise do jornalismo? Muita coisa, a julgar pelos comentários que o filme Intrigas de Estado, de Kevin MacDonald, atualmente em cartaz, vem despertando. Além de falar em jornalismo, o longa-metragem toca noutro assunto vital do nosso tempo – a privatização da força militar. Mas talvez o que ele tenha de mais fascinante seja a discussão que traz sobre o futuro do jornalismo num ambiente cada vez mais dominado pelos meios eletrônicos.

A trama coloca lado a lado, primeiro como opositores e depois como colaboradores, o repórter Cal McAffrey (Russell Crowe) e a novata Della Freye (Rachel McAdams). Ele é o protótipo do jornalista investigativo, paciente e rigoroso na apuração. Sabe que a notícia deve ser perseguida, não chega pronta à mesa do profissional, deve ser checada e confrontada em suas várias versões. A verdade, mesmo que parcial, é um bicho de muitas caras e cabe ao repórter desvendá-las. Já a garota é dona de um blog, hospedado no portal do mesmo grupo jornalístico que edita o fictício Washington Globe . Para ela, o que vale é a velocidade, a notícia em cima da hora, o gossip, o brilho das celebridades instantâneas. Tentando conciliar esses mundos, a diretora de redação do jornal, Cameron Lyne (Helen Mirren). Veterana, ela conhece o valor de uma reportagem bem apurada e a importância da credibilidade de um veículo de comunicação, acima das pressões financeiras.

É nesse clima de exigências contraditórias que os profissionais entram na apuração de alguns fatos em aparência sem contato entre si – o assassinato de dois rapazes e o suicídio de uma jovem assessora de um parlamentar. Há um tempero erótico no ar quando se suspeita que a assessora seja amante do político, que é casado. Por isso, essa parte apimentada da história vai para a blogueira. Cal irá cuidar dos assassinatos. Logo os dois casos irão se cruzar e se interligar. E então os dois repórteres terão de colaborar em vez de competir.

Intrigas de Estado entra na já antiga tradição do cinema dedicado ao jornalismo. Dinastia que tem entre seus integrantes pelo menos uma obra-prima como Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, e grandes filmes, caso de A Montanha de Sete Abutres (1951) e Primeira Página (1974), ambos de Billy Wilder.

Embora Welles tenha em mente uma profusão de temas, o comentário mais incisivo de Cidadão Kane é sobre o acúmulo de poder que ronda o jornalismo. Não por nada, quando Kane decide se tornar um figurão, sua primeira providência é comprar um jornal para lhe dar suporte na carreira política, enfim frustrada.

Billy Wilder também não passa uma imagem das mais favoráveis do jornalismo em seus filmes. O interessante é que ele conhecia o ofício por dentro – foi repórter em sua Viena natal, antes de se tornar cineasta nos Estados Unidos. Conta-se que tentou uma entrevista com Sigmund Freud, na clínica do psicanalista. Marcou horário, como se fosse um cliente, e foi recebido por Freud no endereço famoso, Bergasse, 19. Freud lhe perguntou qual era o problema e Wilder disse que era repórter e queria entrevistá-lo. Em resposta, Freud limitou-se a apontar para a porta e dizer que a saída era por ali.

Como cineasta, Billy Wilder acabou dando razão a Freud ao produzir um poderoso libelo contra a imprensa sensacionalista em A Montanha de Sete Abutres. Seu protagonista é o repórter Charles Tatum (Kirk Douglas), veterano de grandes coberturas, mas no momento no “exílio” em um pequeno jornal no interior do país. Precisa de uma reportagem espetacular para levá-lo de volta ao primeiro time. Como entre o sensacional e o sensacionalista a diferença é de detalhe, Tatum pega pesado ao manter sob os holofotes um sujeito acidentado em uma mina, a fim de para manter acesa a curiosidade dos leitores. O desfecho é trágico.

O melhor comentário de Wilder sobre o jornalismo marrom, no entanto, está no hilário Primeira Página, com a dupla Walter Matthau e Jack Lemmon revelando de forma cômica os bastidores da profissão. Walter Burns (Matthau) é um diretor sem escrúpulos e Hildy (Lemmon), o repórter que decidiu se casar e largar a profissão. Mas Burns faz de tudo (tudo, literalmente) para que, pelo menos, Hildy realize uma última cobertura, a de um enforcamento. A sala de imprensa, no presídio, é um verdadeiro antro, onde se fuma, se bebe e se joga. E onde se contam piadas de salão (de barbeiro, enquanto se espera a execução). Os jornalistas são modelos de cinismo e um deles sugere ao diretor da penitenciária que antecipe o horário do enforcamento para facilitar o fechamento de seu texto.

O tom debochado dos repórteres reforça a proverbial arrogância associada à profissão, os hábitos pouco ortodoxos de quem não tem tempo a perder, a obediência ao princípio de que fins justificam meios, etc. Enfim, a crítica se dirige ao culto do pragmatismo, dos objetivos e prazos a serem cumpridos sem qualquer consideração de ordem ética que parecem existir apenas para causar atrasos e empecilhos à notícia. E, sim, A Primeira Página ilustra o culto do furo a qualquer preço, a supervalorização da notícia exclusiva que faz a diferença tanto para os veículos de comunicação como para os profissionais que a conseguem. Na caça ao furo, tudo vale. Até mesmo criar a notícia. Ou amplificá-la, ou dramatizá-la, para que cause maior impacto e ganhe relevo jornalístico.

Nem sempre, porém, o jornalismo sai mal na fita do cinema. Basta citar dois belos exemplos contrários – Todos os Homens do Presidente (1976), de Alan Pakula, que mostra a fundamental investigação do caso Watergate conduzida pelos repórteres do Washington Post Carl Berstein Bob Woodward e (Dustin Hoffman e Robert Redford) e o mais recente Boa Noite, e Boa Sorte , de George Clooney, sobre o preço da dignidade jornalística na época do macarthismo.

A eles se soma este Intrigas de Estado.Do relacionamento entre a blogueira e o jornalista resulta mais a cooperação do que a rivalidade. Afinal, a reportagem é assinada por ambos, embora seja ele quem a escreve e ela quem a envia. Ainda sobra uma vantagem para o velho jornalismo sobre os novos meios – são da velha escola os métodos de apuração que acabam por prevalecer. E a última sequência do filme, realizada com tanto capricho, mostra a simpatia old school do cineasta ao fazer com que a câmera acompanhe carinhosamente o processo industrial da impressão em suas etapas, das bobinas ao produto final. O velho jornal de papel pode embrulhar peixe no dia seguinte. Contudo, enquanto está fresquinho nas bancas ainda é imbatível. Pode até desaparecer um dia como suporte físico, mas deve permanecer como filosofia de trabalho.

(Cultura, 22/6/09)

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