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Johnny, sem tempo para pensar

Luiz Zanin Oricchio

04 de janeiro de 2008 | 18h50

O ano cinematográfico brasileiro começa com uma carta forte e, em plenas férias de verão, lança um filme para o público adulto. De certa forma, Meu Nome Não É Johnny pode ser visto como continuidade da discussão aberta por Tropa de Elite no ano passado. Neste, o tráfico de drogas era visto na sua intimidade, como um assunto dos morros, da polícia e da classe baixa. A classe média entrava no papel de vilã, fomentadora do crime a cada vez que acendia um baseado. Agora, no filme de Mauro Lima, a classe média assume o papel central pois vem dela o protagonista, João Guilherme Estrella.

O filme é baseado no excelente livro homônimo do jornalista Guilherme Fiúza, que está sendo reeditado pela Record para acompanhar o lançamento do filme. É um trabalho interessante e que permite ao leitor um mergulho não no ‘submundo’ do crime, a não ser que se entenda que dele façam parte alguns points badalados do Rio como o baixo Leblon e o baixo Gávea, áreas de atuação preferencial de Estrella.

Há um momento, como se diz no livro, em que a cocaína entrou na corrente sanguínea da cidade. Nesse instante, a droga deixa de ser contabilizada em casos episódicos, uma festinha aqui, uma carreira acolá, para se tornar sistêmica. Isso não quer dizer que toda uma coletividade cheire. Quer dizer que a droga se dissemina e cria uma cultura própria. E é nesse momento que o garotão da zona sul passa de usuário a traficante.

A história do rapaz que se mete com o tráfico para descolar cocaína para si mesmo, e depois como forma de levar um vidão desregrado, é contada a todo vapor, se a expressão não for descabida nesse contexto. Mauro Lima teve a esperteza de captar esse dado do texto e transformá-lo em linguagem cinematográfica. O filme teria de exibir a velocidade e a intensidade da vida que João Estrella (Selton Mello) escolheu para si próprio.

De narrativa simples, porém nada quadrada, Meu Nome Não É Johnny se divide em algumas etapas. Numa, a ‘evolução’ profissional de João e sua escalada na hierarquia do tráfico, até participar de uma conexão internacional para envio da droga, refinada no Mato Grosso, à Europa. Depois, a sua queda e a experiência da prisão e do manicômio judiciário. São, naturalmente, etapas contrastantes da biografia do personagem, e assim devem se traduzir na tela. Mas há um lado ‘festivo’ em João, que passa de uma fase para outra e que, provavelmente, fez com que ele pudesse se sair bem em situações muito diferentes. Ele consegue escapar do vício e da convivência com traficantes, experiências que costumam ser perigosas. Depois, mostra-se apto a sobreviver em cárceres infectos e manicômios que se revelam muito mais enlouquecedores do que terapêuticos.

João é um sobrevivente nas selvas. E suas armas são a inteligência rápida, a simpatia, o charme. Enfim, um papel para Selton Mello e para ninguém mais.

E talvez aí esteja outro dos trunfos do filme – a feliz escolha do elenco. Selton era, claro, talhado sob feitio para este personagem. Concilia o senso de humor com a energia. E assim dá credibilidade a um tipo que vai se afundando cada vez mais como se estivesse participando da mais inocente das gincanas. Há mesmo esse lado meio doidivanas em João e ignorar a euforia onipotente provocada pelas drogas é uma maneira muito boa de não entendê-las. Só causam dependência porque provocam muito prazer, mesmo que depois cobrem um preço absurdo por esse paraíso artificial.

Daí o calibre justo – e, portanto, nada moralista – escolhido pela direção para contar a história de João Guilherme Estrella. Daí o acerto da escolha de Selton. E também, em boa parte, de sua parceira de vida, Sofia, Cléo Pires no filme. Tão doidinha quanto João, Sofia o acompanha na trip em que a vida de ambos se converte. E está com ele até o momento em que é preso.

Sem ser moralista, há, no entanto, uma ‘moral’ do filme, naquilo que antigamente se chamava a sua ‘mensagem’. Filme popular e educativo, não poderia deixar grande margem de dúvida sobre onde põe os pés. Deixa claro que sua posição é antidrogas e que apenas mostra as aventuras de João para melhor destacar quanto ele pagou e sofreu por elas.

O filme, no entanto, é melhor quando mostra a ascensão do personagem do que quando se concentra em sua queda. Estrella é mais interessante na delinqüência que no arrependimento. Mais convincente nos subterfúgios de marginal simpático do que nas promessas do cidadão cumpridor das leis. Se o malandro é melhor personagem do que o cidadão honesto,a culpa não é do cinema, mas das expectativas de quem vai assistir aos filmes. O desejo de transgressão ainda é algo a ser levado em conta.

(Caderno 2, 4/1/08)

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