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Jogos eternos

Luiz Zanin Oricchio

08 de janeiro de 2008 | 17h37

O futebol, como a vida, é feito de rotina e de exceções, e ambas são necessárias. Mas o que fazer se nos lembramos mesmo é daquilo que sai da norma e vem marcado por alguma circunstância excepcional? São assim os grandes jogos, aqueles que ficam para a história, para o bem ou para o mal. Quem poderá jamais esquecer os 2 a 1 para o Uruguai na Copa de 1950? Inútil alguém dizer que nem era nascido na ocasião. Basta ser brasileiro e gostar de futebol para ser marcado por essa derrota mítica.

Há muitos outros exemplos: as finais de Copas do Mundo em que o Brasil esteve envolvido (como apagar da memória o fiasco de 1998 ou a glória de 1970?); ou aquele Corinthians 1 x Ponte 0, que tirou a Fiel da fila em 1977? Ou o clássico Santos 5 x Fluminense 2, que os santistas lembram como “o jogo de Giovani”? Enfim, cada um de nós tem um ou vários jogos de coração, que colecionamos com o amor que os bibliófilos dedicam aos livros raros e os cinéfilos aos filmes clássicos.

A coisa boa é que o culto aos jogos históricos tem chegado à forma de livro. Há uns dois anos, o jornalista Alexandre Petillo teve a boa idéia de organizar um volume chamado Meu Jogo Inesquecível. Petillo reuniu um time variado para contar suas memórias futebolísticas – de Juca Kfouri a Roberto Dinamite, de Chico Buarque a Luiz Felipe Scolari, num total de 56 jogos que marcaram época. Dei minha modesta contribuição escrevendo sobre Santos 4 x Milan 2, aquela épica virada, sob chuva e num Maracanã lotado. Apesar de bem criança em 1963, foi esse o jogo que definiu a minha maneira de sentir e entender o futebol. E a própria vida.

Por isso foi uma surpresa muito agradável receber o novo livro de Odir Cunha, Donos da Terra, que narra o antológico Santos x Benfica, no Estádio da Luz, em 11 de outubro de 1962, quando o time de Pelé ganhou seu primeiro título Mundial.

Esse jogo tem uma particularidade. Pelé dizia que essa era a sua partida inesquecível, aquela em que jogara como nunca. Dá para imaginar? O fato é que o Santos já havia vencido o Benfica no Maracanã por 3 a 2, placar apertado em jogo difícil. Se, atuando em casa, o Benfica ganhasse o segundo, forçaria a terceira partida, a “negra”.

Diz a lenda que em Lisboa já se vendiam ingressos para o terceiro jogo, pois no Estádio da Luz o Benfica não perdia de ninguém. E havia outro tira-teima dentro de campo, o duelo particular entre Pelé e Eusébio, o grande moçambicano que se tornou o maior jogador português de todos os tempos. Qual dos dois seria o melhor? Bem, para os brasileiros não havia dúvidas; mas os europeus achavam que o Pantera, como chamavam Eusébio, podia ser ainda maior do que o Rei. Mas, como escreve Odir, “Se Eusébio era a Pantera, Pelé era a síntese de todos os bichos”.

E assim, no final, deu Santos 5 x Benfica 2 e todos ficaram sabendo quem mandava no futebol do planeta. Pelé fez três, Coutinho e Pepe completaram o placar. O Santos chegou a abrir 5 a 0 e só tomou dois gols depois de relaxar, no final do jogo, com Eusébio aos 41′ e Simões aos 44′ do segundo tempo. Gols de honra, para salvar a cara de um grande time.

Odir Cunha descreve o jogo, dá o contexto da época, entrevista os jogadores. E revela que só um dos portugueses mostrou má vontade ao falar daquela noite mágica em Lisboa – justamente ele, Eusébio, que havia perdido o título e o duelo com Pelé. Donos da Terra nos permite reviver essa época de ouro do futebol. Não para que nos paralisemos de nostalgia, mas para lembrarmos que aquilo existiu. E, o que foi possível um dia, pode voltar a sê-lo, ainda que pareça improvável.

(Esportes, coluna Boleiros, 8/1/07)

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