Jogo de Poder
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Jogo de Poder

Luiz Zanin Oricchio

30 de março de 2011 | 13h51

Jogo de Poder é um daqueles filmes que levam a marca de prestígio “baseado numa história real”. É curioso esse apego ao “real”, como se a ficção não fosse capaz de causar a mesma impressão de verdade no espectador. Em todo caso, aposta-se que tudo será mais impactante porque aconteceu de fato. O cinema passa a ser, então, mera transcrição de algo que existe fora dele, no exterior, algo que está inscrito na realidade das coisas mesmas. E “coisas”, aqui, se referem à História e, em particular, a fatos recentes e ainda bastante dolorosos para o público norte-americano consciente. Em poucas palavras, referem-se à farsa montada pelo governo Bush para justificar a invasão do Iraque em 2003.

O caso real a que se refere é ao da agente da CIA, Valerie Plame (Naomi Watts), que tem a vida ameaçada e a carreira destruída quando seu marido, o diplomata Joseph Wilson (Sean Penn), denuncia a farsa em artigo publicado no New York Times. Na matéria,  Wilson põe a nu a manipulação de informações sobre a suposta existência de armas de destruição em massa, criada para justificar a invasão do país de Saddam Hussein.

O filme, dirigido por Doug Liman, coloca-se como exemplar típico do cinema político contemporâneo. Adota a estrutura de  um suspense bem engendrado. Trabalhando com uma dupla de atores de fôlego e imprimindo ritmo tenso, Liman consegue prender a atenção do espectador do primeiro ao último fotograma, embora a aceleração às vezes dificulte a compreensão dos fatos.  O que importa mesmo, como é de hábito nesse tipo de projeto, é a interseção entre a História e a vida pessoal dos protagonistas. Talvez aí haja algum exagero, como se o diretor não acreditasse na dramaticidade intrínseca dos fatos históricos e precisasse se apoiar numa crise de casal para dar mais colorido e vivacidade ao filme.

De qualquer forma, Jogo de Poder é mais uma celebração das virtudes da liberdade de expressão e informação. Na época, o governo Bush pôde mandar suas tropas ao Iraque, à revelia da ONU,  mas montou uma farsa para justificar-se aos olhos da opinião pública. Quem cria uma farsa precisa sustentá-la. E isso é muito difícil, senão impossível, em ambiente de vigilância de uma opinião pública livre e sem o rabo preso. É um dos pontos de honra da cultura americana e o cinema não se cansa de louvá-lo – em histórias baseadas ou não em fatos reais – como pedra angular da democracia. Também parece ser tarefa do cinema mostrar que esse direito inalienável tem seu preço, que se paga às vezes com o sacrifício de vidas particulares. O preço da liberdade  é a eterna vigilância, na frase atribuída a Thomas Jefferson.

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