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Jogo de Cena é o máximo

Luiz Zanin Oricchio

23 de dezembro de 2007 | 12h22

Amigos, o Cultura este ano fez uma retrospectiva diferente. Pediu a cada crítico um e apenas um destaque em sua área. A parte que coube nesse latifúndio foi o cinema brasileiro. Escolhi Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. Abaixo, o texto. Bom domingo a todos.

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Num ano em que a produção brasileira se destaca pela qualidade, um filme sobressai entre todos – Jogo de Cena, obra para marcar época, entre outros motivos porque coloca em xeque a distinção clássica entre cinema de ficção e documental.

Pois bem, há muitos anos já se dizia que documentário e ficção eram vasos comunicantes e, quanto mais fluente fosse a passagem entre os dois, melhor o resultado para o cinema. De fato, o cinema de ficção sempre se beneficiou de um diálogo com o lado documental da realidade e os documentários em geral saíram enriquecidos quando se valeram de técnicas ficcionais para dar vida aos seus personagens da vida real.

Jogo de Cena simplesmente embaralha esses dados, mas não apenas por uma questão de técnica ou de filosofia de trabalho, mas para dar ainda mais realce às subjetividades dos personagens. E quem são eles, ou melhor, elas? Mulheres, que atenderam ao convite publicado num jornal, convocando quem tivesse histórias para contar. Das 83 que atenderam ao chamado, 23 foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha, em junho de 2006.

Em setembro do mesmo ano, atrizes conhecidas (André Beltrão, Fernanda Torres, Marília Pêra), e outras menos, “interpretam” para a câmera aquilo que algumas das personagens reais haviam dito. As “atuações” de atrizes e personagens é mesclada, e o diretor não faz questão de diferenciar umas das outras. Por exemplo, uma das falas é dita por uma moça negra, de rosto pouco conhecido. Pensamos que é a personagem real, mas no final ela diz algo como “Assim ela contou”. E ficamos sabendo que se trata de uma atriz. A certeza do espectador vai pelo ralo.

O cenário é sempre o mesmo – o palco do teatro, com as poltronas vazias ao fundo. Esse set – despojado – funciona talvez como confessionário, talvez como consultório psicanalítico. Talvez como algo entre os dois e também diferente de ambos.

Não adianta dizer que Coutinho “ouve” como um sacerdote ou atua como um profissional do divã. Se existe alguma particularidade nele, é que inventou alguma coisa parecida com uma “escuta cinematográfica”. Daí o êxito de filmes como Santo Forte, Edifício Master e este Jogo de Cena. Parece que os personagens contam para ele histórias que jamais relatariam a outra pessoa, ainda mais diante de uma câmera. E, assim, Coutinho aprimora um dispositivo cinematográfico que é como uma ferramenta longamente trabalhada, que se ajusta de maneira perfeita à sua mão.

E o que dizem essas mulheres, e que não contariam a ninguém mais senão a Coutinho e àquele olho mecânico postado atrás do seu ombro? Falam de perdas, em especial. Esta perdeu o filho, aquela o marido. Outra tem saudades do pai, um homem forte, autoritário, que acabou seus dias preso a uma cama, vítima de um AVC. Essas mulheres falam também de sonhos. Não do sonho como sinônimo de aspiração, mas sonho mesmo, aquele fenômeno mental que Freud considerava a via régia para o inconsciente. Quando a vida é muito dura, quando a dor é pesada demais para ser reparada pela realidade, são os sonhos que vêm em socorro das mulheres. Assim, uma delas vê em sonho o filho que havia morrido num assalto. Outra não falava com o pai e, quando ele morreu, parecia condenada à culpa eterna. Mas o pai a visitou em sonhos e a perdoou.

Essas histórias são comoventes quando as personagens as contam. E continuam comoventes quando as atrizes as interpretam. Não se trata de mera repetição. Há uma atuação. Isso quer dizer que fazem parte de um processo ativo, no qual uma atriz recebe o “texto” de uma história e o recria à sua maneira, o reinterpreta e acrescenta coisas suas. A atriz torna sua a história que vive. Assim, Andréa Beltrão não consegue conter as lágrimas ao interpretar a mãe que perde um filho mas acha que ele continua vivo e presente. A própria mãe é mais “fria” no relato, mais controlada. Mas, para Andréa, aquela situação é insustentável.

É uma afinação entre subjetividades, como duas vozes, uma cantando uma terça acima (ou abaixo) da outra, e produzindo um sentido de harmonia imenso. São muitos os momentos de emoção (entre risos e lágrimas) deste filme único, mas talvez o que resuma a totalidade da proposta de Coutinho seja aquele em que uma das personagens entoa, com dificuldade para não chorar, Se Essa Rua, que o pai lhe cantava na infância. Ao fundo, ouve-se a voz da atriz, entrelaçando-se à da personagem na mesma canção. Tudo está aí.

Já se disse que a função da arte é injetar subjetividade no mundo tornado estéril pela onipresença do mercado. Há algo comum a todos nós, a nossa dor, a nossa emoção. Essa obra-prima de Coutinho nos devolve essa verdade simples.

(Cultura, 23/12/07)

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