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Jogo de Cena

Luiz Zanin Oricchio

11 de novembro de 2007 | 02h19

Depois de falarmos durante tanto tempo que as fronteiras entre ficção e documentário eram tênues, chega Eduardo Coutinho e resolve o problema. Como? Implodindo de vez essa divisão num filme que já tem lugar assegurado na história do cinema brasileiro. Que lugar será esse? Não sabemos, talvez não importe tanto saber agora. Só o que se desconfia é que Coutinho, no universo ruidoso do cinema contemporâneo, parece ter produzido aqui uma suave revolução.

É o que se vê na tela e também o que se percebe no público que tem visto o filme por aí, antes de sua estréia no circuito aberto. O que existe nos depoimentos dessas mulheres sobre suas próprias vidas que tanto nos toca? E por que essas falas parecem alcançar uma espécie de potencialização quando reverbera na voz das atrizes que interpretam as ‘personagens reais’? E aqui somos obrigados a abrir aspas porque atrizes e personagens se confundem, como se o diretor nos mostrasse, com sua clareza implacável, que essas posições se intercambiam – e não apenas num filme que se vale como poucos dessa ambigüidade: quando somos ‘autênticos’? Quando dizemos a ‘verdade’ ou quando a representamos para o outro?

Daí esse rico dispositivo do diálogo, que, se não foi inventado por Coutinho (é parte da nossa cultura ancestral), encontra nele o seu melhor hábitat. O diretor tem, como um psicanalista, depurado essa arte da escuta diante de uma câmera. Daí a intensidade da sucessão de filmes que realiza na fase mais recente – Santo Forte, Babilônia 2000, Edifício Master.

E, agora, Jogo de Cena. A simplicidade da situação – o teatro vazio, a mesma cadeira, a posição da câmera – aponta para essa que é uma das grandes sacadas humanas e que também serviu à psicanálise na hora de sua invenção: uma situação aparentemente rígida e inviolável, mostra-se propícia para que o improviso apareça e possa se exercer. É um milagre que acontece a cada vez que uma pessoa, qualquer pessoa, conta a sua história e, ao fazê-lo, se inventa. Que uma atriz possa se apossar da história alheia e, nesse ato, fazê-la sua própria, é apenas um outro milagre da subjetividade, restituído neste filme notável.

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